Papai Noel no divã

– Papai Noel: estou cansado dessas crianças colocando em mim a esperança dos presentes, achando que sou eu, o sabe-tudo maniqueísta, onisciente, quem devo dizê-la se foi boazinha ou má. Como se soubesse eu, de forma tão necessária

quanto me é a barba branca, o casaco vermelho e branco, a barriga grande e a pele branca, discerni-las em seus comportamentos. Creem em mim a capacidade de poder de compra e escolha de seus pobres pais. Estou cansado, bem como estas, das renas mágicas, voadoras!, me carregando com milhões de presentes por sobre todo o mundo. Me encaixando em chaminés de prédios herméticos nas madrugas do aniversário daquele Deus, que depositam sobre mim a sua descrença.

– Você se sente um Deus esquecido?

– Papai Noel: não não, eu não me sinto um Deus esquecido. Eu sinto que sou mesmo porque eles não tiveram coragem de assumir o assassinato de seu Deus.

– E você se sente ameaçado, como se fosse o próximo Deus a ser assassinado?

– Papai Noel: não há ameaça nesse fim, porque eles não conseguem matar o que já nasce morto. Eu existo apenas pela minha não existência,

mesmo que em tantas propagandas eu apareça. Todos aqueles que me defendem, as crianças bobinhas, o fazem pois ainda não me perceberam. Todos que me criam sabem muito bem que não existo. Os papais e mamães, as lojas de vendas em dezembro, a Coca-Cola: me figuro e me formo na sua incapacidade. Na morte da esperança dos pais de darem cabo da responsabilidade de criação como coisa material, da vida, que necessitam da minha magia transcendental pros seus filhos serem “bons”, colocando sobre mim sua chantagem autoritária pois sequer têm a coragem de a admitir. Nessas empresas, a incapacidade de uma venda que seja pois na necessidade, criando e reproduzindo toda aquela história que os pais contam para que nas crianças eu apareça como o realizador de seus desejos. Que uso subversivo de minha imagem! É culpa minha a sua incapacidade de admitir que os seus deuses precisam ser engaiolados em suas igrejas e se aparecendo apenas quando os convém? Apenas enquanto existência transcendental, mas despojados de sua magia? É em mim que depositam a incapacidade de defesa de que seu único deus é verde e se chama dollar?

– Se você não existe, com quem eu falo então?

– Papai Noel: com aquele que não existe. Vivo num castigo prometeico de insipiência. Dou-lhes seu fogo não ungido, pecaminoso, aos fins de seus anos, não aquele fogo da sabedoria, não, ao contrário. Dou-lhes o fogo da ignorância e da alienação. Pago por esse meu pecado à serviço dos humanos com meu castigo hepático: toda noite do ano se alimentam de minha não existência, enquanto durante o dia – nos meses que me esquecem – regenero-me à morte, ao esquecimento. Deixo de sofrer apenas aí, quando não sou, quando não estou.

– Mas quem é esse que me apresenta, o que existe pela não existência ou aquele que não é?

– Papai Noel: você domina esse limbo, é por isso que consigo aqui me apresentar. Retomo: só existo pela minha não existência. Sou criado por aqueles que sabem que não existo. Digo mesmo que a única qualidade ontológica de meu ser é não existir. Só sou por aqueles que não sou. E não me venham dizer que eu nasço e existo de verdade nas cabecinhas daquelas criancinhas que acreditam em mim, isso é mentira. Eu nasço nelas apenas quando forem as próximas agentes de marketing. Eu não sou o velho de cabelo branco, barba, roupa vermelha, sou sim, mas não é isso que me define, que delineia e separa as bordas daquilo que sou daquilo que não sou. O que me define é a existência pela não existência. Não acho que isso seja um problema por si só, talvez eu pudesse conviver com isso. Noutros tempos, com outra gente talvez. Mas meus criadores não podem me deixar conviver assim em paz, senão eu seria o monstro que eles mais temem. Não o monstro, porque eles já possuem monstros demais, mas minha liberdade soltaria todos os outros já engaiolados nas frias grades de sua sublime razão. Aqui e a você sou tudo isso e não sou nada, sou sendo o meu nada. Aqui eu talvez possa ser um pouquinho, enfim. Você anda com entes que não tão facilmente podem ser engaiolados na purificação moderna. A sua psique, onde vive? No seu corpo frio e distante ou nas afiadas relações sociais humanas? A consciência e, pior, a inconsciência, são produtos simples das somas bioquímicas de seus cérebros? Ou produtos simples das somas das interrelações humanas e sociais? Não basta nenhuma dessas cápsulas, enquanto vocês são puros demais para admitir qualquer magia nesse meio. Minha magia vive em todos vocês justamente por não conseguirem admiti-la. Verei-me livre de vocês, modernos diabos, apenas quando vocês viverem livres de mim. Talvez aí possam viver livres de si.

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