Pelo começo do período letivo e início da trajetória universitária para os calouros, a equipe editorial decidiu entrevistar algumas figuras presentes no cotidiano do IFUSP, dando enfoque em temas cotidianos e de convivência no instituto.
- Acadêmico
Como você gosta de estudar para as disciplinas? Que tipos de material você mais usa no dia a dia?
Carlos: Eu guio meu nível de conhecimento a partir das listas de exercícios que eram fornecidas. Para aprender o conteúdo, eu normalmente eu vou atrás dos livros que estão propostos pelo professor, caso não haja recomendação, peço alguma indicação de um amigo ou leio as notas de aula, caso eu esteja anotando, mas eu sempre tento procurar nos livros didáticos.

Luana: Acho que eu tenho um jeito mais “tradicional” de estudar. Fazer anotações durante as
aulas, ler as notas de aula e principalmente fazer exercícios é o que sempre funcionou para mim. E sempre gostei de usar papel e lápis, só.
Estudar junto ou só trocar ideias sobre as matérias com outros colegas te ajuda de alguma forma?
Luana: Eu tenho um estilo mais solitário para estudar. Preciso de um tempinho, só eu e o conteúdo, encarando o abismo e o abismo me encarando, para assimilar o que eu preciso. No entanto, eu acho muito importante conversar com outros colegas sobre o conteúdo e os exercícios. Compartilhar diferentes formas de resolver um problema, por exemplo, pode te ajudar a pensar as coisas de outro jeito e eu acho que ter esse léxico de abordagens é um diferencial muito grande na forma com que você encara um exercício ou um problema numa pesquisa, por exemplo.
Dani: Sim, na verdade eu dependo de estudar junto para funcionar. Disciplina não é muito o meu forte. Ter companhia de amigos estudando me ajuda muito para além de tirar dúvidas a mera presença já me ajuda.

Das disciplinas que você já cursou, qual delas mais te intrigou ou mudou sua forma de pensar?
Ely: A primeira disciplina que explodiu minha mente foi Mecânica I. Tive a sorte de fazer essa matéria com o professor Fernando Garcia. Foi a segunda metade do curso que me marcou mais. Basicamente reconstruímos toda a mecânica a partir do princípio da mínima ação, chegando na teoria lagrangiana, ou seja, o conceito de que o caminho físico era aquele que minimiza a ação, o que foi uma explosão científica para mim.
Para falar mais uma, tenho que colocar uma matéria do IME. A matéria de graduação mais difícil que eu fiz na vida (depois de uma da pós-graduação que cursei no IMPA): análise real com o lendário Cristian Ortiz. Essa foi uma das matérias que mais estudei na vida. O baque foi grande quando eu tirei 0,5 na primeira prova (valia 12 pontos, se eu não me engano), mas chorando a nota e mostrando a ideia das minhas resoluções, consegui aumentar para 3,0. Depois disso foi muito estudo e muita ida na sala do professor para tirar dúvidas. Na segunda prova eu tirei 12 e já tinha o suficiente para passar no curso. Sem dúvida, foi o melhor professor que tive na minha vida e o meu maior desafio da graduação.

Francisco: É uma pergunta complexa pra mim. Uma das disciplinas que eu mais gostei de fazer e que me ajudou a me motivar muito foi uma optativa chamada “Mecanismos Moleculares do Processo Neoplásico”, que é basicamente uma introdução a como funciona o câncer. Mas eu sei que essa é muito nichada, então vou dar mais duas.
Na primeira graduação, foi “Evolução dos Conceitos da Física”. Tive o privilégio de cursar com o queridíssimo João Zanetic, e essa matéria mudou a minha vida e a forma como eu vejo a Ciência como um todo.
Nesta graduação agora, por incrível que pareça, foi Cálculo I. Mas a minha perspectiva é meio enviesada, porque eu tive mais de 20 anos pra ruminar tudo que eu vi na primeira vez que eu cursei Cálculo, então eu pude apreciar certas nuances que acabam passando despercebidas. Do ponto de vista da Física, Mecânica também foi muito interessante.
Olívia: De longe a disciplina que mais me impactou foi “Tópicos de História em Física Clássica”, com a professora Vera. Nessa disciplina da licenciatura, nós lemos e discutimos textos clássicos da física, como trechos do Principia de Newton. Foi muito interessante ver a forma com que os físicos do passado discutiam sobre o calorífico e, posteriormente, o éter, duas formas de “matéria não matéria”, um conceito pensado como matéria mas que não teria características de matéria propriamente ditas, desenvolvidas quase que como remendo teórico em momentos históricos diferentes, demonstrando para mim a importância do estudo da história e filosofia da ciência pelos cientistas para desenvolverem teorias com consciência de sua história para evitarem repetirem o mesmo erro.

Você costuma pegar matérias em outros institutos? Se sim, para quem você recomendaria pegar essas mesmas disciplinas?
Luiz: Sim, e creio ser esta uma característica importante da formação que pretendo. Até então, se não me esqueço de alguma, cursei 3 matérias pela FFLCH, 2 pelo IPUSP e 1 pelo IAG. Recomendo àqueles que pretendem aprofundar criticamente o estudo da ciência, explorando as bases epistemológicas e culturais em que se situa, os paradigmas de verdade, que por vezes nos escapam, e os vieses ideológicos, que podem surgir na intrinsecamente social produção científica.
Dani: Eu pego matérias da licenciatura, é muito bom, abriu muito meus horizontes. Especialmente Ciência Educação e Linguagem, a matéria abre muito a sua mente para pensar o processo científico, o nosso papel na sociedade, e o contexto em que a academia está inserida. O professor Cristiano Mattos conduz a matéria brilhantemente.
Luana: Sim, costumo. A princípio, eu as recomendaria para alguma pessoa que tem alguma ideia de em qual área quer se especializar. Há muitas disciplinas sobre Física Nuclear e instrumentação científica no IPEN, disciplinas sobre Física Atmosférica e Geofísica no IAG e muitas disciplinas no IME pra quem gosta de Física Matemática ou gostaria de trabalhar com simulações usando matemática aplicada e computação. Porém, acima de tudo, acho que todo mundo que tiver algum grande interesse na disciplina deveria buscá-las, mesmo que não seja seu foco na especialização. Talvez você não tenha decidido ainda a área e nesse caso eu também recomendaria dar uma olhada nessas disciplinas, às vezes só como ouvinte, para descobrir mais sobre cada assunto.

Ely: Eu acho que já deu para perceber que eu pisava muito no IME. Fiz álgebra linear II, topologia, análise real. Eu realmente gostava muito de matemática (ainda gosto, mas não para seguir pesquisa). Recomendo muito para quem gosta da parte “linguística” da física, os matemáticos que me perdoem por essa afirmação.
Steps: Eu gosto de disciplinas de idiomas, e especificamente agora eu estou fazendo o tupi I neste semestre. Eu recomendo que você, estando na universidade, conheça línguas novas ou aprofunde no seu próprio português, que é esse o caso do tupi I. Eu gosto bastante de escrever e, às vezes, me perco muito estudando a origem das palavras, a etimologia. E eu acho que conhecer um pouco mais dessas raízes, para mim, vai ser uma coisa bem interessante.
Você já fez iniciação científica? Se sim, quais são suas atribuições e como foi o processo de pedir a iniciação científica para o professor?
Carlos: Eu fiz duas iniciações científicas ao longo do meu curso de graduação. A primeira foi no LMCAL, que é o laboratório de óptica quântica aqui da USP. Foi uma experiência super legal, e eu estava bem no início da minha graduação. Tive meus primeiros contatos com a mecânica quântica lá. Eu sentia que estava me esforçando muito para entender o que estava de fato acontecendo lá nos experimentos do lab, mas no fim, eu não passei nem perto de compreender, tendo apenas noções muito vagas, o que me deixou um pouquinho confuso durante a IC. Apesar de não ser algo que eu queira seguir em frente, foi bem legal, principalmente, para ter contato com pessoas que, de fato, fazem pesquisa e ver o dia-a-dia delas.

movimento sindical pelo PCBR.
Já a minha segunda IC foi sobre Relatividade Geral e teoria de campos em espaços curvos. O meu orientador foi o André Landulfo, da UFABC, e foi uma experiência que foi legal também. Eu comecei a trabalhar com ele um pouco cedo. A gente começou a conversar no final do meu primeiro ano, e ele me passou algumas coisas para ler de relatividade geral e de mecânica quântica, que eram disciplinas que estavam completamente fora do meu calibre e do meu conhecimento na época. Por isso, a gente passou um pouco mais de um ano preenchendo esses pré-requisitos para começar de fato a atacar os tópicos que são do dia-a-dia de pesquisa dele. Para mim esse momento foi muito bom, já que eu pude aprender com ele e ter um tempo de estudo reservado para avançar em coisas que me davam muito interesse. Depois que a gente preencheu esses pré-requisitos para desenvolver o formalismo de teoria de campos em espaços curvos, nós aplicamos isso para um sistema físico que é bem não trivial, que tem a ver com uma carga acelerada, emitindo radiação e como você interpreta esse fenômeno em dois referenciais diferentes.
Ely: Sim, tive dois projetos com meu atual orientador. Uma iniciação científica, ao meu ver, não deve ter muitas atribuições. A prioridade deve ser sempre a graduação. No meu caso, eu utilizei esses projetos para me aprofundar na literatura de minha área de pesquisa e, principalmente, para meter a mão na massa em questões prática do dia-a-dia, como cálculos computacionais, linguagens de programação, enfim me acostumar com o ferramental da área.

O processo foi bem precoce e eu não recomendo todo mundo seguir o que eu fiz, mas foi muito interessante. Eu pedi iniciação científica para meu professor de física I no final do primeiro semestre. Lembro que mandei um e-mail falando que gostava da área dele e que queria me aprofundar mais. No fundo era uma mentira, eu gostava mesmo era da didática do Varella e de como ele tratava bem os alunos. Não fazia ideia da área dele e só dei uma olhadinha no Lattes antes de mandar o e-mail. Enfim, foi uma história com final feliz, estamos aí até hoje.
Steps: Acho que eu posso complementar dizendo que é bom participar dos encontros, dos grupos de estudo, por exemplo, o grupo de filosofia e história de ciência, faz em contas regulares, e é sempre bom ir para conhecer a pessoas e suas área de enfoque dentro das grandes áreas.
Como você descreveria os momentos de monitoria? Se você já foi monitor, sua visão da monitoria mudou de alguma forma?
Carlos: Eu não fui um aluno que batia ponto em todas as monitorias, mas eu sempre tirei dúvidas pontuais com o monitor. Por exemplo, usava para tirar dúvida de uma passagem que não entendi do livro que estou estudando, ou um exercício da lista que não consegui resolver, ou até mesmo uma passagem da minha solução que eu não estava muito confiante e queria saber se faz sentido. Esse tipo de experiência me ajudou muito, mas enquanto monitor, eu via poucas pessoas fazendo.

Eu fui monitor de Eletromagnetismo I e Física II, e me ajudou muito para consolidar o conhecimento. Depois que você já teve uma exposição completa daquela disciplina, ao reler os livros para a monitoria, os cliques de conhecimento vão se encaixando e tudo começa a fazer mais sentido. Eu senti que hoje em dia eu tenho um conhecimento muito melhor dessas disciplinas por causa do período que fui monitor. Além disso, você interage com os alunos e treina sua didática. Foi uma experiência muito legal e acho que é uma das coisas que o pessoal não podia deixar de fazer ao longo da graduação.
Ely: Eu frequentava bem pouco as monitorias, só quando batia o desespero (alô, análise real), então foram momentos pontuais. mas importantes.
Eu já ministrei muitas monitorias. Desde física I até eletromagnetismo II e creio que foi uma das coisas mais importantes para minha maturidade na física. Acredito que nós absorvemos um conceito apenas se formos capazes de explicá-lo e a monitoria me ofereceu uma maneira de construir conhecimento e ganhar um dinheirinho importante para minha manutenção na vida.
Você já pensou em se transferir de curso ao longo da graduação? o que te motiva a ficar ou a sair?
Luiz: Por muitas vezes me vi mais ligado aos estudos externos da graduação que aos tópicos nesta trabalhados. Isso necessariamente faz-me ponderar a transferência. Contudo, creio que esta vontade seja apenas ilusiva. Não que o curso de física seja essencial – esta sacralização, que já presenciei em alguns, não me agrada -, mas sim que não creio que haja um curso perfeito. Prefiro continuar diversificando minhas áreas de estudo e desenvolvendo um arcabouço específico, e creio que o diploma na Física abre muitas portas – ainda que esta seja uma afirmação da qual muito se discorde.

Olívia: Já pensei muito em me transferir para a Economia e, depois, para a Bacharelado em Matemática Aplicada à Computação. O que me manteve no curso foi, primeiro, a disciplina de Tópicos de Física Clássica, que me deu a razão que tanto senti falta ao longo do curso por ser o primeiro lugar que apresentou explicitamente que o conteúdo que aprendemos não é fechadinho e tem lacunas e disputas. Em seguida, a disciplina de Probabilidade me apresentou a teoria da informação e, com ela, as possibilidades do estudo da sociedade e da economia com a Mecânica Estatística, uma linha de pesquisa com bastante protagonismo da China e que me fez encontrar meu lugar na Física.
Priscila: Nunca pensei em me transferir de curso, mas cheguei a considerar o trancamento. No primeiro ano, em 2020, com a chegada da pandemia, eu trabalhava em regime CLT e me vi completamente sobrecarregada. Não estava conseguindo compreender disciplinas como Cálculo I, Fundamentos de Mecânica, Geometria Analítica e Ótica. O desespero foi tanto que cheguei a escrever uma carta solicitando o trancamento total do curso; só não a enviei porque consegui uma vaga no PIBID.
Ao longo desses anos, enfrentei muitas crises de ansiedade e de pânico. Em diversos momentos, a ideia de desistir do curso me atravessou, principalmente quando sentia que não aguentava mais. No entanto, alguns processos foram essenciais para que eu conseguisse permanecer. O programa de acolhimento do IFUSP, por exemplo, foi um dos fatores que literalmente me salvaram nesses momentos. Realizei acompanhamentos psicológicos, ultrapassei o limite inicial de sessões e, hoje, consigo manter um acompanhamento contínuo. Nesse momentos, meu companheiro, meus amigos e professores foram minha base.

Recentemente, fui atravessada por uma crise do tipo “eu gosto mesmo de Física?”. Durante uma aula de Eletromagnetismo, o Prof. Dr. Alexandre Suaide percebeu que algo não estava bem e me perguntou se estava tudo bem – e eu não consegui mentir. Após a aula, ele me chamou para conversar, e aquela tarde mudou completamente o meu olhar para a Física. Nesse encontro, ele me ensinou muitas coisas, mas, sobretudo, o seu acolhimento me devolveu forças para seguir. Mesmo estando no final do curso, esses momentos continuam a me atravessar, e ter professores como o Suaide nesse processo é extremamente importante. Eles nos ajudam a resgatar a realidade, a enxergar o mundo com outros olhos e, principalmente, a voltar a acreditar em nós mesmas.
Francisco: Nunca. Eu tive a grande sorte de encontrar uma coisa que eu não sei viver sem fazer, que é a Física. Eu tive uma fase em que eu quase fui pra outra área, mas eu não estava na graduação. A Física Médica me puxou de volta de um jeito que foi até inesperado, a Física é uma coisa que me pega muito forte desde que eu era moleque. Não sei fazer outra coisa.
Acho importante também deixar anotado aqui que essa afirmação tem uma carga grande de privilégio, porque eu não precisei enfrentar certas barreiras na minha jornada. Me deixa MAL saber que a maioria das pessoas não consegue ver a física (e o IFUSP) da mesma forma que eu vejo, simplesmente por não estarem dentro de um certo “padrão”.
- Moradia e vivência
Você mora no CRUSP? Se sim, como foi o processo para conseguir uma vaga no CRUSP? Já morando lá, como é sua rotina, nos dias de aula e no fim de semana?
Luiz: Sim, moro no CRUSP. O processo para conseguir vaga foi extremamente burocrático e estressante. Durante todo o processo, a maneira como a relação aluno/instituição se construiu foi a partir de uma desconfiança como instrumento de rebaixamento. O tempo todo, se fazia notar que o aluno era visto como possível transgressor, que pretendia moradia sem necessidade – um reflexo da política antiquada e acrítica da universidade. Já morando no CRUSP, a minha rotina se resume em ir ao IFUSP estudar nos períodos da manhã e tarde, e alimentar-me nos bandejões da prefeitura e central. Nas noites de domingo como alimentos de fácil preparo, como arroz e frango.
Francisco: Já morei, em duas ocasiões diferentes, mas faz muito tempo. Minha rotina era bem tranquila, estar perto da Faculdade ajuda demais. O deslocamento curto ajudava a participar de atividades, eu ia mais ao CEPE, às vezes podia até cochilar em casa depois do almoço, antes das aulas da tarde. Morar no CRUSP é uma baita experiência de aprendizado e de imersão na diversidade. Na época, os fins de semana eram mais complicados porque o bandejão não abria, então a gente precisava dar um jeito. Enchíamos uma sacola de mercado com pão do bandejão no almoço de sábado, o que já ajudava, e saíamos a pé pra ir aos lugares próximos da Cidade Universitária. A gente gostava de caminhar até o CEAGESP pra comprar frutas, legumes e verduras, fazendo uma vaquinha e fazendo as coisas coletivamente. Um dos segredos do CRUSP é esse, eu acho: aprender a participar coletivamente das coisas. Para uma pessoa autista com eu isso é mais que um desafio, então foi uma experiência meio traumática. Poderia ter sido melhor, mas lembro com carinho dessa época.
Priscila: Moro bem longe do IFUSP, no Capão Redondo, mais especificamente no Jardim Amália. Todos os dias faço o mesmo trajeto de ida e volta até o IFUSP: saio de casa de ônibus até a estação Capão Redondo, sigo até a estação Santo Amaro, faço a baldeação, desço na estação Cidade Universitária e, por fim, pego o circular até o IFUSP. Repito esse percurso diariamente – e confesso que já não aguento mais. Costumo ficar na universidade desde a manhã até por volta das 20h. No próximo semestre, terei aulas no período noturno, o que significa que, em pelo menos dois dias da semana, voltarei para casa ainda mais tarde. Tenho aulas de manhã e, à tarde, utilizo o tempo para estudar no PROFIS. Nos finais de semana, tento descansar sempre que possível; quando não dá, aproveito para colocar em dia o que não consegui concluir durante a semana. E, toda segunda-feira, tudo recomeça. Moro bem longe do IFUSP, no Capão Redondo, mais especificamente no Jardim Amália. Todos os dias faço o mesmo trajeto de ida e volta até o IFUSP: saio de casa de ônibus até a estação Capão Redondo, sigo até a estação Santo Amaro, faço a baldeação, desço na estação Cidade Universitária e, por fim, pego o circular até o IFUSP. Repito esse percurso diariamente – e confesso que já não aguento mais. Costumo ficar na universidade desde a manhã até por volta das 20h. No próximo semestre, terei aulas no período noturno, o que significa que, em pelo menos dois dias da semana, voltarei para casa ainda mais tarde. Tenho aulas de manhã e, à tarde, utilizo o tempo para estudar no PROFIS. Nos finais de semana, tento descansar sempre que possível; quando não dá, aproveito para colocar em dia o que não consegui concluir durante a semana. E, toda segunda-feira, tudo recomeça.
Você mora no entorno da USP? Se sim, como é sua rotina nos dias de aula e no fim de semana? Você tem alguma dica para quem procura alugar um quarto nesta região?
Luana: Eu venho de outro estado e moro na Vila Indiana, um bairro bem procurado pelos estudantes da USP. Não é segredo pra ninguém que já tenha procurado algum lugar em São Paulo que os aluguéis aqui são, pra não dizer outra palavra, perversos. Você vai pagar muito por pouco, pouco espaço, pouca higiene e pouca segurança. E acho que isso me faz passar praticamente todo o meu dia no Instituto. Lugares mais afastados da USP, a depender do bairro, podem ser bem mais baratos e/ou mais seguros. Você precisa ponderar entre a facilidade de locomoção até o instituto e a qualidade de vida que você pode ter nessa selva de pedra. A dica que eu dou para encontrar casas é procurar os grupos de aluguéis no Whatsapp, sites de aluguel, e os grupos no Facebook (foi lá que eu encontrei minha primeira república). Se te agradar, dividir um lugar com alguém que você conheceu na USP e que tenha uma rotina parecida com a sua pode ser muito bom, me ajudou a pagar menos e ter mais conforto.
Em 2024 houve a situação de alguns calouros dormindo no CEPEUSP. Você chegou a vivenciar isso de perto?
Luiz: Sim, fui um dos alunos que viveu ali. O fiz por uma promessa omissa: fora-nos informado que teríamos um alojamento até que fôssemos abrigados no CRUSP conforme as chamadas fossem ocorrendo. Só não tínhamos noção da condição inumana em que se encontravam os quartos.
Francisco: Não. Achei isso um absurdo, a função do CEPEUSP não é essa. O CRUSP DEVERIA ter vagas temporárias para ingressantes, afinal o começo da faculdade já é difícil sem a angústia de não ter onde ficar, especialmente pra quem vem de longe. Enquanto os blocos J e K não forem devolvidos, infelizmente essa situação sempre será uma possibilidade (e mesmo assim, a devolução dos blocos não seria suficiente para a demanda).
Depois de horas de estudo ou até mesmo entre os intervalos de aulas, um tempo de conversa e socialização é bem vindo. Dessa forma, onde você se depara passando esse tempo? Quais são as peculiaridades desse ambiente?
Luiz: Passo esse tempo com meus amigos nos espaços em que estava estudando. Se no IFUSP, geralmente nos encontramos no restaurante em frente à Física, nos arredores e corredores do instituto ou no Hacker Space. A lanchonete da física é um ambiente agradável por ser arejado e bem ventilado, além, claro, de ter um bolo delicioso. O HackerSpace é muito desejável por ser um ponto de encontro de muitos amigos, sendo portanto uma ótima opção de socialização para os alunos do IFUSP.
Carlos: Sobre os momentos de socialização, o café entrou na minha vida quando eu entrei na graduação. A maioria dos momentos que eu paro para estudar é para ir tomar um cafezinho com os meus amigos. Assim, eu estou sempre batendo um ponto lá no Hacker Space, porque o café é de graça. Os meus amigos também estão sempre frequentando lá, então é onde eu normalmente encontro o pessoal. Mas também de vez em quando eu só dou umas andadas aleatórias aí no campus com o pessoal também. Às vezes, quando a gente está mais gourmet, nós vamos lá no Preciosa, que é no IPEN e tem um café mais barato que o da Lanchonete.
De forma geral, como você enxerga a mobilização política no instituto de física?
Luiz: Vejo com bons olhos. Creio que muitos alunos têm interesse em aprofundar-se nos estudos da política e os movimentos dentro do instituto se distinguem com coragem. Ainda assim, a conjuntura do instituto tem problemas profundos calcados em estruturas de poder. Não é segredo que a cultura patológica do “gênio”, ou, do estudante superior, do intelectualmente elevado, aquele que, despido de toda necessidade social, se sacrifica como mártir da Física, seja ainda cultuada, e abertamente endossada por docentes do IFUSP. Este é, para mim, o problema político mais fundamental do instituto, e creio que é longo o caminho a se trilhar para resolvê-lo.
Olívia: Acredito que o IFUSP é um dos locais mais bem mobilizados da USP. Lógico que existem dificuldades, avanços e refluxos, mas é um dos únicos locais da USP em que mais vejo protagonismo de estudantes não organizados em partido ou coletivos. Geralmente, o movimento estudantil USPiano gira completamente em torno dessas forças políticas, que tentam tomar a dianteira do movimento, esquecendo dos estudantes não organizados. Mas na Física eu vejo que isso é diferente, que existe uma preocupação real em estimular a participação ativa de estudantes não organizados.
Francisco: Infelizmente, entendo que seja pouca. Antigamente, o IFUSP e o CEFISMA eram forças políticas muito maiores dentro do ME. Hoje em dia (acho que por conta da pandemia e também por causa da “internetização” das coisas), ficou mais difícil mobilizar efetivamente as pessoas. Mesmo assim, acho que esse quadro tem melhorado (graças ao esforço de quem se mexe, e felizmente as pessoas do IFUSP que “atendem ao chamado” são muito competentes e tenazes).
- Esportes, grupos e coletivos
Você participa de algum grupo, coletivo ou associação dentro do IFUSP?
Kayo: Sim, participo do time de Handebol e de Cherateria.
Os treinos de Handebol Masculino da AAAGW, assim como grande parte das modalidades coletivas, são realizados no centro de prática esportiva da USP (CEPEUSP). Os treinos duram de 1h a 1h30 nas quadras do CEPE, Contanto com a presença de uma comissão técnica. A organização interna do grupo parte da eleição de pessoas a posição de DM, os Diretores de Modalidade, responsáveis por gerir de modo organizacional o time e fazer a comunicação com a AAAGW.
De maneira relativamente simples, a Cherateria é um grupo de pessoas que mantém alguma relação com samba ou com música no geral e também serve como um espaço de convivência para aqueles que querem um momento de descontração depois de dias exaustivos de estudos ou para o convívio com pessoas próximos dentro do coletivo. A Cherateria surge como uma bateria de samba, semelhante aquelas que vemos nos grandes desfiles de carnaval que acompanham os carros alegóricos, numa escala reduzida. Ou seja, não contamos com centenas, mas com dezenas de ritmistas. Além de samba, tocamos ritmos inspirados em reagge, blues, jazz, olodum, rock e outros mais. Os ensaios são realizados na Praça da rádio nas proximidades do IAG e IF no intervalo das 17h-19h em vários dias da semana, sendo sexta-feira o dia mais fixo para a prática rítmica da bateira.
Luana: Sim! Participo do Grupo de Teatro Vaca Esférica e faço um convite a todos os calouros a procurarem interagir com as entidades e coletivos e encontrar alguma para participar. As entidades e coletivos foram um aspecto que me agradou muito quando cheguei aqui; elas movimentam diferentes atividades sociais e culturais no instituto e isso, na minha opinião, é parte essencial da vivência universitária.
O Vaca é sem dúvida uma das minhas coisas favoritas no instituto. É uma espécie de porto seguro pra mim, como um refúgio. Sei que é clichê dizer isso, mas eu considero as pessoas que passaram pelo Vaca e que estão comigo lá hoje parte da minha família. Eu me divirto demais fazendo teatro. O fato de sermos uma entidade organizada apenas por estudantes com administração horizontal torna as coisas mais leves; não há aquela necessidade de prestar contas a algum professor ou de sempre entregar uma peça. Por fim, se quiser ver a gente se divertindo, ou apresentando, como preferir, normalmente fazemos as peças a cada final de semestre. Uma menor, no estilo de pequenas histórias, ao final do primeiro semestre e uma peça maior ao final do ano. Também apresentamos alguma peça já encaminhada no início do primeiro semestre, durante a semana de recepção.
Dani: Sou cofundadora e coordenadora do LabDiv – Laboratório de Expressão e Divulgação do IFUSP – que tem como objetivo apoiar estudantes no desenvolvimento de habilidades de comunicação científica.
O LabDiv nasceu para preencher uma lacuna na formação científica: ensinar a comunicar. Mais do que escrever ou apresentar bem, comunicar ciência é tornar o conhecimento acessível, inspirador e socialmente relevante. Com mentorias, materiais abertos, oficinas e produções audiovisuais, o LabDiv transforma a cultura acadêmica e aproxima a Física de todos. Os serviços do LabDiv são gratuitos e disponíveis a todos os alunos do IFUSP.
Carlos: Eu participo do Grupo Noether. Hoje em dia, o grupo tem o intuito de divulgar atividades relacionadas com a vida acadêmica, como oportunidades de intercâmbio, IC etc, colocar os alunos em contato com tópicos que não estão expostos aí nas disciplinas da graduação, além de organizar a escola de inverno do IFUSP e a Escola Carmen Lys para os alunos do Ensino Médio.
O grupo que surgiu como uma reformulação do DPS (Dead Physicists Society), que estava responsável pela organização da Escola de Inverno Jayme Tiomno do IFUSP. Por muito tempo, o DPS foi gerido por uma pessoa só, e quando essa pessoa acabou saindo do instituto, a entidade praticamente morreu, só seguindo com a escola de inverno. Então, para trazer uma visibilidade para as novas atividades, a gente chamou mais pessoas para integrar o projeto e fizemos um reformulação do grupo.
Ely: O Coletivo Negro Sônia Guimarães foi meu primeiro contato com a política universitária e foi fundamental para minha formação política dentro do instituto. Além disso, ele é essencial como entidade de permanência para estudantes negros. Atualmente temos realizados muitos cafés pretos, que se rata de um evento de socialização entre os membros e estamos tentando começar um clube do livro.
A Sônia é inspiração para todos nós pois ela é uma cientista de ponta e nos dá a possibilidade de nos enxergarmos nesse lugar. Além disso, ela discute abertamente questões de raça e gênero, o que é fundamental para nós entendermos que é muito mais difícil uma pessoa preta chegar a esse espaço do que uma branca. Além disso, ela nos ajuda a entender a relação entre questão racial e classe também, que é fundamental para a luta do povo negro. Enfim, ela nos dá força e vontade de construir a mudança.
Priscila: O coletivo negro é de suma importância dentro da universidade – e, no IFUSP e no IAG, isso é ainda mais evidente. Desde 2018, esse coletivo tem sido um espaço de apoio para diferentes gerações, onde podemos compartilhar momentos, histórias, aprendizagens, dores, afetos e tudo aquilo que só faz sentido quando vivido coletivamente. Aqui podemos ser quem somos, nos admirar mutuamente e nos motivar de forma recíproca. É nesse espaço que construímos resistência e afirmamos para o que viemos.
Viemos para ser professoras, pesquisadoras, mestras, doutoras. Viemos para ser realidade. Ver pessoas como nós ocupando esses espaços é algo profundamente potente. Em dezembro de 2025, o Coletivo Sônia teve a oportunidade de participar do 1º Workshop de Físicas e Físicos Negros Afrodescendentes Brasileiras(os) e Americanas(os), realizado em Salvador/BA. Foi um evento de uma grandiosidade única, reunindo pesquisadoras e pesquisadores com trabalhos ricos e extremamente relevantes para a sociedade – e essa é apenas uma das inúmeras importâncias que esse coletivo carrega.
Olívia: Os coletivos anti-opressão são organizações estudantis fundamentais para o acolhimento de estudantes que fazem parte de grupos marginalizados, além de ter o importante papel de tocar a luta política relacionada à determinada opressão quando o Centro Acadêmico se omite de fazê-lo, pressionando-o, ou somando-se e construindo junto às mobilizações do CA caso contrário. Estou afastada do Coletivo Prisma já tem alguns anos, mas tem um pessoal muito bom querendo reviver o coletivo, o que sou bem a favor, sei que estão organizando mostras de filmes LGBTIA+, seguidas de discussões. A professora homenageada, Gabrielle Weber, minha orientadora, é a primeira professora travesti de um curso de exatas na USP, dá aula na Escola de Engenharia de Lorena e, atualmente, lidera o grupo de pesquisa Corpas Trans e Travestis na USP, grupo do qual faço parte. Atualmente estamos trabalhando num artigo sobre Projetos de Lei Anti-Trans no Brasil (contendo uma análise estatística), que está nos finalmentes, então fiquem ligades!
Steps: Sou membro ativo do Hacker Space, que é um espaço múltiplo e por vezes de definição difícil. Ele é um espaço de convivência, um espaço de troca e debate, tornando nosso dia-a-dia mais agradável, o que falta na USP. Mas ele não é só um lugar de convivência, é um expoente também para os projetos que temos na física: temos tocado o projeto da estação meteorológica, da engenharia reversa do PASCO, estamos produzido a reciclagem para os filamentos 3D e também realizamos cursos, como o manual de sobrevivência, que é destinado a ajudar os alunos em vários programas, usados no primeiro. De forma geral, a gente se vê como um espaço auxiliar dos alunos, um espaço para os projetos, um espaço para convivência, um espaço para troca. Um espaço assim é de extrema importância e eu acho que poderia ter em todos os institutos, para a universidade universidade não ser só um lugar onde você vê aula e vai para casa, ou fica enclausurado na sua sala fazendo sua pesquisa. Acho que isso empobrece muito a universidade.
Nós queremos muito que a comunidade do HS continue crescendo e também queremos aumentar o número de projetos. Então, um convite para quem estiver lendo: Se você tiver um projeto ou uma ideia, fale com a gente, que vemos quais são os processos que a gente tem para tornar essa ideia algo concreto, podendo até se tornar um projeto de iniciação científica com bolsa.
Francisco: Os grupos que eu participo não são “dentro” do IFUSP, são eles:
Coletivo Autista da USP: O CAUSP engloba a Universidade toda. É o primeiro Coletivo Autista do Brasil, e é um grupo que tem várias pessoas do IFUSP, inclusive. Lá a gente encontra um ambiente que é até difícil descrever, porque a interação entre pessoas autistas é uma coisa mais… genuína? Não sei se essa é a palavra certa. Mas é um lugar onde a gente se sente mais à vontade pra baixar um pouco as máscaras e barreiras que a gente normalmente usa o tempo todo. Tem algumas iniciativas importantes e tem conseguido algumas conquistas importantes, como a publicação de um “manual” para professores sobre alunos com necessidades especiais, e a implementação de salas sensoriais em algumas unidades da USP (uma sala no IFUSP deve ser montada “em breve”).
Diretório Científico Marília Teixeira da Cruz: É uma entidade nova, que criamos dentro da FisMed (atualmente sou o presidente), cujo objetivo não é ser um Centro Acadêmico (temos o CEFISMA pra isso), mas um representante com espírito mais acadêmico. Com apoio da CoC-FisMed, ajudamos a organizar a Semana de Recepção da Fismed e a Semana da Física Médica, além de servirmos como órgão que acolhe as Ligas Acadêmicas da Física Médica.
- Peguntas abertas
O que mais te surpreende no IFUSP?
Luiz: As aulas.
Que dica você daria para alguém que está entrando agora no instituto?
Luiz: Ao entrar aqui, você corre o risco de cair num poço de ressentimento que invoca uma certa competição quase animalesca com seus colegas e uma necessidade fulgurante de estudar todo o tempo, tomando coisas como socialização como inferiores ou “desfocadas”. Não deixe isso acontecer. Não use a física para se validar ou compensar qualquer coisa – aproveite-a intensamente enquanto construto absolutamente incrível que é.
Francisco: Faça amigos. O apoio mútuo é a maior ferramenta para sobreviver aos desafios que o IFUSP nos apresenta. Isso pode não ser fácil, e infelizmente pode depender um pouco da sorte, mas com paciência e perseverança todo mundo consegue encontrar pessoas que vai levar para a vida toda. Comigo foi assim.
Além disso, explore tudo. Visite laboratórios, converse com professores, veja tudo que é feito aqui. E quando alguma coisa te interessar, agarre e não solte mais.
Já tendo completado a graduação e estando em outro estágio da vida acadêmica, como você vê a graduação e o que você acha de mais importante, em termos acadêmicos e não acadêmicos, dessa primeira etapa?
Ely: Eu creio que o principal papel da graduação não é te ensinar apenas física, mas te mostrar como as ciências exatas são construídas. Te dar o ferramental para você conseguir construir uma especialização e amadurecer seu saber em física ou outra área que te interesse. Uma das coisas mais interessantes é que esse ferramental não é universal, mas pessoal. Você vai aprender como estudar algo que te interesse e a forma de fazer isso é só sua. A graduação te ensina a se descobrir nesse sentido e te dá a maturidade necessária para esse processo. Enfim, te dá a base para ser um ou uma cientista.
Você tem alguma história ou situação que resume bem a sua vivência aqui?
\textbf{Priscila} A dificuldade com a matemática me acompanhou ao longo de toda a graduação. Em 2023, tentei cursar Geometria Analítica pela terceira vez e, na primeira prova, consegui resolver apenas uma questão. Fiquei desesperada em relação à segunda avaliação e estudei intensamente, quase sem parar.
No dia da prova, meu coração parecia que ia sair pela boca, as mãos começaram a suar e o pânico tomou conta. Não aguentei e precisei me retirar da sala. Antes de sair, porém, não consegui segurar o choro que estava preso no peito. O professor percebeu imediatamente, saiu da sala e foi atrás de mim. Fui para o banheiro feminino e ali chorei com toda a dor que carregava, enquanto escutava sua voz do lado de fora dizendo: “Priscila, fica calma, respira, vem cá”. Dentro daquela cabine, o pânico ainda me dominava.
Uma aluna estava chegando para fazer a prova e o professor pediu que ela entrasse no banheiro para me ver. Felizmente, era a Bruna. Ela me acolheu em seus braços até que eu conseguisse me acalmar e sair. Quando voltei, o professor me olhou e perguntou: “Posso te dar um abraço?”. Gente, eu chorei tanto. Eu precisava muito daquele abraço – e ele foi fundamental naquele momento.
O professor então me perguntou se eu gostaria de fazer a prova em casa. Eu insistia que não sabia o conteúdo, que não adiantaria, e ele tentava me tranquilizar: “Priscila, na P1 a sua questão 1 estava totalmente certa. Você sabe, sim. Faça a prova em casa e depois eu vejo como avaliar”. E foi isso que fiz. Sempre fui muito sincera comigo mesma e com os professores. Por isso, junto com a prova, escrevi uma carta relatando minhas dificuldades e explicando que havia realizado a avaliação com a ajuda do meu companheiro, pois sozinha não conseguiria. Ao final, o professor me atribuiu exatamente a nota de que eu precisava para ser aprovada na disciplina. Por muito tempo, fiquei sem entender como um professor podia ter me ajudado daquela forma. Até que, durante uma das sessões do programa de acolhimento do IFUSP, a psicóloga me fez uma pergunta que mudou tudo para mim: “Mas, Priscila, o papel do professor não é justamente esse? Ajudar, reconhecer as dificuldades do estudante e acolhê-lo?”. Essa pergunta transformou completamente o meu olhar – como aluna e como futura professora.
Sobre o entrevistador:
Hugo Menhem é bacharelando pelo IFUSP e percebeu quão “não trivial” é fazer perguntas.