Aprecie algumas obras de artes produzidas pelos alunos do Instituto!
Canção de ninar para Cavalos
Luiz G S Almeida
I. Fala o caminhante
Tudo aquilo que escrevo é transcrição. É materialização de devaneios surgidos dos desrumados vagueios que empreendo. Mas não escrevo para me comunicar – pelo contrário, creio que nunca se tenha ido tão fundo em direção à palavra quanto aquele que primeiro compreendeu que a função dela é esconder, que seu conteúdo é exatamente aquilo que omite, que guarda em sua caixinha protegida dentro do sobretudo. Também não escrevo o que pensei: O pensamento do caminhante tem o ritmo dos passos, mas as palavras, o da caneta. O ritmo dos passos é um um frevo baiano, mas o da caneta é ditado por um coronel amargurado. Mais me valeria que não pudesse pensar, ou ao menos que pudesse esquecer o que pensei, para que não mais me frustrasse a comparação entre o texto escrito e a auto-conversação bela.
Escrevo, antes, para que surja o inimigo. Pois é isto: o que se escreve toma forma, ganha vida e caminho a contra-gosto daquele que escreve, se opõe ao nome no fim da página. E escrevo por precisar de um inimigo que fale minha língua, que se arme de meu arco e atire contra mim flechas por mim mesmo talhadas. Isso parece escapar aos dialogismos cotidianos: essa insurgência efêmera de uma infinidade de mundos que atravessa os pulmões e o aparelho bucal, as distorções, ora voluptuosas, ora iradas, que formam o olho – tudo isso se cala perante a autoridade tirana dos ENTENDIMENTOS. Terceira necessidade que me impõe à caneta: dar voz a um novo mito, um novo fogo, cujo destino há de ser destronar este sujeito que entende. Ah! Vê! Já emerge de mim, já me sobrepuja este sátiro maldito: eis o Amor.
II. Fala o Amor
I. Muito se fala de amar como profundeza,
Mas nunca vi homem algum capaz de mergulhar,
De levar a cabo aí a exigência dessa sua verdade.
O amor é profundeza: quem de vós, contudo,
Fora uma única vez capaz de derrubar, destruir
As infinitas teias em que se entranhou
Pela fuga mesmo deste fastígio?
II. Sai, sai de mim com essa compaixão e pena!
Me enoja seu “integrar” e “incluir”:
Antes fosse capaz de odiar e destruir.
E quem permitiu que usasses contra mim
Aquilo que eu agora mesmo proferi em discurso?
Isto, a verdade: para os que amam, a veracidade
Sucumbe no instante mesmo que a última sílaba
De uma profecia se pôde ouvir proferida.
Pois o quê? Não somos mesmo trespassados
Por infinitas realidades simultâneas e êmulas? –
Não somos nós mesmos infinitos e êmulos? –
Mas tu insistes em dar à realidade o caráter
De atualização de uma só dentre as possíveis,
E afirmar no homem virtuosa a intransigência.
III.Rejeito sua intransigência, ó covarde!
Toda intransigência, toda fixidez é proteção –
Proteção de quê? Quem é este EU, este SER
Que, filhote de coelho, se aventura no mundo
Aos pulos e tropeços, amedrontado e frágil,
E cuja toca se constrói maldizendo e negando
Este próprio mundo e estes próprios pulos?
IV.Há aqueles que pesam a própria vida
Com um denário e uma balança de pratos
E dizem: “isto trará mais mal que bem,
Viver é mais sofrer que aprazer-se”
E sofrem e se lamuriam, covardes demais
Até para a morte que mais lhes caberia
Mas o Amor diz: “vem a mim! De novo!
E se isso me pode quebrar, se me enfrentará,
Que venha a mim! É preciso forjar o inimigo.
Quero os que me contrariam, que batem o pé,
Quero as tensões e torções insolucionáveis,
Indissociáveis da coexistência mesma.
V.Mergulhar nas profundezas do amor:
Mas isto é se desarmar, se destruir, se afogar!
Pois, que resta uma vez extraída a compaixão?
Em verdade digo: ódio mesmo, e incapacidade
De prender, de fixar – de entender! Ó homem,
Homem do conhecimento, és incapaz do amor!
VI.Quero essa violência aumentada, faltante.
Quero esta conexão infinita consigo mesma
Que, efêmera que é, desvanece assim que surge
Passado, presente e futuro: que são tudo isso
Senão a ilusão de qualquer coisa eterna, fixa
Que se mantém conforme tudo passa?
Mas o Amor é essa explosão microcósmica
O Amor é uma função delta de Dirac.
VII.Dois tipos de homens encontrei quando,
Incapazes do Amor, mantinham suas grades:
Aqueles afetados contra o passar, os eternos
Mas também os inimigos da explosão,
Os separados, que escolhem e se arrependem.
E dizem: “Isso ou aquilo, tudo é absurdo”
Que diferença há entre esses “libertos”
E os lamuriosos pessimistas de outrora?
Os absurdizados, condenados à liberdade –
Antes fossem capazes de assumir seu nojo!
Mas dizem: “Não há sentido!” – e se protegem
“O Ser e o mundo guerreiam” e mantém bases
Bases gerais, rigorosidades, seus universais
VIII.Mas o Amor nada mais é que isto:
Adoecer, se perder, explodir infinitamente.
E abrir-se às realidades absolutamente –
Ainda que durem apenas um piscar-de-olhos.
Não! É exatamente POR ISSO, não “ainda”
O Amor É porque muda e sofre, não apesar:
O Amor é uma dança de sátiros e mortais.
III. Fala a Harpa
Dança, ó homem, dança e te entrega ao mar de óleo. Muito agoniado te vi, ó homem, e de diversas formas buscaste uma solução para um problema desnecessário – e pode ser dito de um problema que existe, se não é necessário? Dança, ó homem, perante as imagens de seus próprios vagares desrumados. Pois outrora te vi rejeitar os grilhões do Bem e do Mal, e se aventurar em incertas corredeiras. Mas mal saíste de uma toca já te adiantaste a buscar outra. E se distanciou da vida, dizendo: “ a vida é um rio, de nada adianta me apegar. A liberdade é desapego.” Ó homem! Não aprendera com as palavras do Amor que seu desapego de estóico é também grilhão? E quem lhe permitiu, ao dizer que em um rio não se entra uma segunda vez, diferenciar a ti mesmo da água? Eu vejo por trás de ti, senhor do tempo: não se machucou demais pelo fim de todas as estações? A tal ponto que agora diz: “à estação, indiferença – assim sou livre da dor”. Mas o Amor é a marca da repetição na passagem: tudo é indiferenciado, vivido sob a forma de uma busca constante por espelhos esparsos, quando se o renega. A vida sem o Amor – o vivente separado do viver – é como a Vitória-Régia que, ressentida de seu afogamento, se nega agora a afundar e perpassa boiando as correntezas.
O Amor é essa mediação entre o devir e os cristais: contra o Ser – seja ele ou tendo vindo-a-ser –, mas por uma infinidade de realidades que estão aí, não em virtualidade ou memória, mas em constante guerra e sobrepujança. É a suspensão mesmo dessa qualquer coisa que se quer parada, que se quer ponto de vista, identidade mesma.
Dança, ó homem! Quantos passos é capaz de performar? Qual será seu próximo giro? Sob este ou aquele mundo, sobre esta ou aquela via da existência que já é agora enquanto falamos? O quão longe podes ir, o quão transversal é o caminho que podes pegar? Viver é lutar contra si mesmo: morre, então! Não há mais intenso viver que a morte pelo inútil – a morte pela sátira, pelo teatro, por uma caminhada ou por uma foda: são as melhores formas de se viver. Dança, ó homem: que te resta de melhor que a mais ridícula e material forma de arte?
Sobre o autor:
Luiz é bacharel em Física e queria muito uma RD350.
Sina.
Evelyn
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do meio fio
Descansemos e observemos o passado, estacionados
Lamentemos nossa perpétua juventude
Os romances e devaneios frustrados
Permita que te relate minhas sombras (com devido sarcasmo)
Te falarei da minha cidade e como me esqueci dela
Assim que pisei em São Paulo
Nos apeguemos depressa, nos amemos desassossegadamente
Com direito a crisântemos, de MPB regados
Poemas de Ricardo Reis, contos de Morangos (mofados)
Lídia, somos pequenos adultos em uma grande vida
Com amores, com ódios, com cuidados e paixões de voz alta
Não me importo com o que dizes, desde que apenas segure minha mão
Deixe que eu te mostre meus discos e recite toscas rimas
Ficaremos embriagados por promessas que nem sequer fizemos
E então no alto do crepúsculo escreveremos nossa efêmera história
Porque tu, Lídia, foi a melhor coisa que me aconteceu
(desde a sertralina)
E mesmo você não sendo a mulher certa, é a mais próxima disso
Quero que saibas que eu não temo a morte
Temo estar apenas sobrevivendo, nutrido por cachaça barata
Me afogando em epifanias rasas, sufocando em doses de angustiante nostalgia
Voltemos então ao sonho passado
A vida corre
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Resposta à obra: Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Métrica do tempo, a relatividade especial contada em versos
Lorena D. C. S.
relógios gêmeos contam Histórias
de viagens em Tempos desiguais,
dilatação e contração são as memórias
de Universos que não são iguais
a Luz, eterna, nunca vacila
se mantendo constante em sua marcha tranquila,
referenciais que mudam, mas concordam,
com as Leis de Lorentz que se transformam
relógios marcam o Tempo a passar
em cada tic-tac, um Evento a se formar,
num ritmo constante tudo vai se alinhar
e os Eventos se sucedem com o relógio a marcar
Tudo é relativo quando o referencial mudar,
o Tempo de quem corre é difícil de comparar
e a Luz, imutável, a sempre brilhar
ditando as Leis em seu caminhar
Lembrança
Steps
A lembrança criança se cansa
de ver rostos anestesiados,
lesados e afirmados.
Por isso choro uma esperança mansa
no meio dessa brincadeira.
Nem devo, nem tenho…nada.
Essas manchas de ranço e ânsia,
donos inscientes de solitários cultos
e iludidos de vãos futuros…
me assustam.
Me diz,
quando fui domado por tamanha apatia?
Quando fugiu toda minha alegria?
De quando subia, caía e… ria.