A Greve dos Funcionários e a Paralisação dos Estudantes
A greve dos funcionários foi aprovada pelo Sintusp para se iniciar a partir de 14 de abril, ocorrendo concomitantemente a paralisação de um dia dos estudantes, que contou com uma caminhada pela USP até acabar em frente à Reitoria.
O estopim foi a bonificação aprovada pelo Conselho Universitário no dia 31 de março que alcançará 82% do corpo docente, resultando em um aumento de R$ 4,500 no salário mensal durante 24 meses e em um montante total de R$ 476,88 milhões, enquanto os trabalhadores públicos não possuem nem mesmo um reajuste salarial que compense a inflação dos últimos anos.
No dia 23 de abril a Reitoria e o Sintusp assinaram um acordo para declarar o fim da greve e a instituição de um programa de gratificação aos servidores técnicos e administrativos – Gratificação por Apoio às Atividades Complementares Estratégicas dos Docentes – GAACED.
A paralisação estudantil do dia 14 foi votada e aprovada em assembleia, como forma de apoio aos funcionários e de revolta a minuta dos espaços estudantis, divulgada em abril deste ano. Este visa a “regulamentação” dos espaços, de forma a preservar o ambiente e a infraestrutura estudantil, demandando que qualquer alteração – como comércio, instalações e benfeitorias – precise de uma autorização a priori. As consequências da execução deste projeto seriam sentidas de forma generalizada para o movimento estudantil da USP, que se gere em cima do comércio e ocupação da Universidade.
A Greve dos Estudantes e o IFUSP
Na quarta-feira, 15 de abril, o DCE da USP aprovou indicativo de greve em uma assembleia estudantil. Essa aprovação significa que os centros acadêmicos têm que puxar assembleias locais para consultar se os estudantes dos cursos que representam querem aderir à greve. Assim, nos dias 16 e 17 de abril, diversos cursos da USP aprovaram greve, com destaque para os cursos da Poli, do IME e do IFUSP. As indicações de pautas gerais da greve, decididas na assembleia do DCE, são:
- PAPFE de um salário mínimo paulista e reajuste salarial para os funcionários;
- Revisão dos parâmetros de sustentabilidade e paridade nos conselhos;
- Fim da minuta dos espaços estudantis;
- Cotas Trans e PDC, vestibular indígena;
- BUSP para as terceirizadas;
- Ampliação de vagas e reforma do CRUSP;
- Bandejão Digno! Pela desterceirização.
Houve, nesta assembleia, um pedido do DCE que, os cursos que aprovassem greve mandassem as pautas gerais e locais mais importantes para a sua comunidade. O IFUSP ainda não teve a sua assembleia estudantil para determinar as suas pautas, mas segue defendendo as pautas gerais indicadas pelo DCE.
Das pautas, damos destaque a demanda do fim da minuta dos espaços estudantis, que foi apresentada em 25 de março na Comissão de Orçamento e Patrimônio da USP (e veio ao conhecimento geral através dos RDs). Nesta minuta, temos imposições que comprometeriam atividades estudantis, dentre elas, a proibição da sublocação do espaço estudantil. No caso do nosso espaço Amélia Império, essa imposição comprometeria a renda do CEFISMA vinda da Lanchonete da Física, da Gráfica e da Livraria da Física.
Renda que é fundamental para o bom funcionamento das entidades do IFUSP. A minuta está disponível no linktree do instagram do DCE.
Notamos que, existe também a problemática (para além do conteúdo da minuta) da Reitoria tentar votá-la antes do parecer do Ministério Público acerca do inquérito do uso e cessão dos espaços estudantis – um processo que está rolando desde 2016 a fim de obtermos uma regularização dos espaços estudantis que seja favorável aos estudantes -, que tem até agosto para sair o parecer.

No IFUSP, a greve é aprovada, com piquete, em uma assembleia no dia 17 (de dois horários, 13h e 18h) com 260 presentes. Dos presentes, 235 registraram voto, com 200 votos favoráveis à adesão à greve, 23 contrários e 12 abstenções; esses votos incluem tanto estudantes da graduação como da pós-graduação. O quórum mínimo usado pelo CEFISMA para a aprovação da greve no IFUSP foi de 10% do corpo discente. Somando a pós-graduação e a graduação, o IFUSP tem 1850 alunos (https://portal.if.usp.br/ifusp/pt-br/node/12592). Note que o estatuto do CEFISMA não explicita um quórum mínimo e que o quórum histórico (usado na greve de 2023) é de 100 pessoas.
O método de votação desta assembleia não foi o tradicional – voto público em que os presentes erguem a mão os são favoráveis (e em seguida os que não são favoráveis e depois as abstenções) e a mesa (os mediadores) averígua qual dos lados teve mais mãos levantadas (decidindo por “contraste”). Em vez desse método, foi usado um método não público. Os presentes votaram num esquema de “urna eletrônica”, apertando num computador um dos botões: “aprovar”, “reprovar” ou “abster”. Para garantir que o voto fosse computado, um membro da mesa ficou supervisionando o computador, porém os demais presentes na assembleia não tinham acesso a tela do computador, deixando o voto não público. O voto para decidir se a greve seria com ou sem piquete foi feito com o método antigo.

Também nesta assembleia, foi eleito o Comando de Greve do IFUSP, que são os alunos que tomam a frente na organização da greve e nas negociações com a Diretoria e a Reitoria. O Comando de Greve do IFUSP (todos discentes do IFUSP) nesta greve são Dália, Gabi, Giovanni, Gabriel, Araki, Camis e Nick do CEFISMA; Ariel e Steps do HS; Guilherme e Maria Clara da AAAGW; Pérola do DCE; João, Olívia e Jader alunos do IFUSP não pertencentes a entidades.
O CEFISMA, para oficializar a greve, envia uma carta aberta aos docentes, Diretoria e Comissões do IFUSP no dia 21 de abril (a carta está disponível no site do CEFISMA – cefisma.com.br/greve-2026/). Na noite do dia 21, o IFUSP é piquetado – sem o uso de carteiras das salas de aula pois elas estavam trancadas – e no dia 22 de abril a greve começa.

Neste primeiro dia de greve no IFUSP, os estudantes se reúnem com os funcionários do instituto para conversarem e alinharem suas lutas. Lembramos que os funcionários ainda estavam em greve neste momento. Paralelamente, a Diretoria do IFUSP tem uma reunião com os docentes do instituto para alinharem a resposta deles à greve.
Na manhã do dia 23, toda comunidade IFUSPiana recebe um email da Diretoria convocando os discentes e docentes para uma reunião no dia 24 e, também, comunicando a posição institucional:
“Assim, [os docentes do IFUSP] aprovaram que ENQUANTO O PIQUETE DURAR, os docentes não irão para sala de aula, […] porém a partir do dia 27/04, os materiais didáticos das aulas planejadas serão disponibilizados para os alunos estudarem e a matéria será considerada ministrada, com exceção das disciplinas experimentais […]. Durante este período, também não serão realizadas provas ou outras atividades de avaliação.“
Ainda no dia 23, o Comando de Greve do IFUSP teve uma reunião com a diretora prof. Kaline Coutinho a fim de, ambas as partes, esclarecerem suas posições; nada foi deliberado. Destaco que, nesta reunião, a Diretoria do IFUSP foi bem insistente no fato que o calendário escolar não será alterado e que caso haja mais de 30\% de aulas não ministradas, isso pode acarretar em reprovação. No final deste dia, é noticiado que os trabalhadores da USP fecharam um acordo com a Reitoria que leva ao fim da greve.
Na sexta, dia 24 de abril, os alunos da USP são notificados pelo DCE que foi marcada uma reunião, para o dia 28 de abril, com a Reitoria para negociações. De acordo com o diretório, essa reunião foi uma conquista dos RDs do Conselho Universitário que pressionaram a Reitoria – é importante ressaltar que essa reunião também é resultado de uma demanda dos funcionários, que disseram à Reitoria que uma das condições para o fim da greve deles é que houvesse uma mesa de negociação com os estudantes. Além disso, nesta reunião do Conselho Universitário, a polêmica minuta dos espaços estudantis foi dita revogada – notamos que, judicialmente, não tem como uma minuta (documento editável) seja revogada se não foi aprovada em primeira instância; desta forma essa “revogação” pode ser entendida como uma arquivação do documento.
Já no IFUSP, o dia 24 é marcado pela reunião entre o corpo docente e discente do IFUSP, com mediação da Diretoria. Nesta reunião nada é deliberado. Houveram diversas falas de alunos e professores, o que promoveu um diálogo maior na comunidade IFUSPiana. Destacamos também que, o Comando de Greve do IFUSP pediu para que a Diretoria assinasse um termo de Não Retaliação, a fim de assegurar que os grevistas não seriam perseguidos e prejudicados – a Diretoria se recusa a ler e a assinar.
O clima entre os estudantes durante o dia 27, segunda-feira, era de expectativa quanto a reunião do dia seguinte. Havia uma compreensão que, a depender de como ocorressem as negociações, a greve poderia chegar ao fim. No dia 28, às 14h, começa a reunião entre o Comando de Greve (neste caso, a nível USP, com uma das cadeiras reservadas para um representante do comando de greve do Baixo-Matão) e a Reitoria. Na reunião, o reitor prof. Aluísio Segurado está ausente, tendo enviado o prof. Edmilson Dias de Freitas (Chefe de Gabinete do Reitor e Diretor do IAG) no seu lugar. Dentre o que foi negociado (de acordo com o DCE), damos destaque
- [Criação do] GT Espaços Estudantis. Usar o documento do Ministério Público de 2018.
- Aumento do PAPFE no mínimo da inflação
- Implementação de ônibus circular 8085 sem catraca. Linha BUSP atendendo ligação entre Butantã, San Fran e Quadrilátero da Saúde.
- Marcada uma próxima reunião para 30/04.
Apesar destas conquistas, é importante ressaltar que não foi assinado o termo de não retaliação pela Reitoria.
Note, também, que o “documento do Ministério Público de 2018” na lista acima faz referência a um processo que está em andamento envolvendo a CALC (CA da ECA), o CEFISMA e o GFAUD (Grêmio da FAUD). Neste processo, tem uma minuta de 2018 que regularizaria os espaços estudantis de forma favorável aos estudantes. Nesta minuta, está previsto que os permissionários (neste caso, os estudantes) poderão realizar contratação de terceiros para utilizar o espaço (ou seja, podem ter suas lanchonetes, gráficas e livrarias). Além do mais, diz que a manutenção e despesas ordinárias do espaço serão de responsabilidade do permitente (neste caso, da instituição), com manutenções extraordinárias sendo arcadas pelos estudantes em até 50\% da sua renda anual, com o resto cabendo a instituição. O documento em sua completude está com o advogado do CEFISMA. Desta forma, o que está sendo dito no item 1 da lista acima é que este GT Espaços Estudantis usaria esta minuta como base.
No dia 29 de abril, os estudantes aprovaram a continuação da greve em assembleia do DCE e, na sexta dia 30, o IFUSP tem sua assembleia local para deliberar se irá continuar na greve também ou não. Nesta assembleia, também em dois turnos e com a mesma metodologia de votação da anterior, temos 177 presentes. Destes, 134 votaram favoráveis a continuação da greve, 36 desfavoráveis e 7 se abstiveram; desta forma o IFUSP segue em greve.
Além disso, no dia 30 de abril ocorre a segunda mesa de negociação entre o Comando de Greve da USP e a Reitoria. Nesta mesa (segundo o DCE), o reitor se retira antes do fim das negociações, sem marcar uma próxima reunião. Após essa mesa, (de acordo com uma matéria do Jornal USP) a Reitoria se compromete em aumentar o valor do PAPFE de R$ 885 para R$ 912 (modalidade integral) e de R$335 para R$ 340 (modalidade parcial com moradia) e em criar uma modalidade de bolsa PUB para ingressantes em situação de vulnerabilidade social. Além disso, assegurou a representatividade discente em diversos grupos de trabalhos que serão criados, como o de acessibilidade de PCDs em diversos ambientes da USP. No entendimento da Reitoria, estão encerradas as negociações das pautas estudantis.
Por fim, na terceira semana de greve no IFUSP, no dia 5 de maio, saiu um dossiê de ocorrências da greve. Neste o dossiê, o Comando de Greve do IFUSP encaminhou registros de aulas e atividades avaliativas que ocorreram durante esse período de greve – ou seja, de maneira contrária a vontade da Diretoria do IFUSP (mais informações no site do CEFISMA). Além disso, foi marcada a próxima assembleia dos estudantes do IFUSP para dia 8 de maio às 14h e às 18h.
A Pós-Graduação
Um dos pontos de tensão durante esta greve, no IFUSP, vem da posição da pós-graduação. Os discentes do programa de pós-graduação, em parte, não se sentem pertencentes ao mesmo movimento da graduação e querem ter um espaço próprio para discutirem a sua posição perante a greve. Até o momento, o CEFISMA e o Comando de Greve do IFUSP vem tratando a classe discente como unificada, deixando clara a posição de que a greve não irá impedir as atividades de pós – a menos das disciplinas que são compartilhadas com a graduação ou das que são ministradas no prédio principal, em concordância com o pedido da Diretoria do IFUSP.
O órgão máximo de representação da pós na USP é a APG-USP, que teve uma assembleia dia 30 de abril para deliberar a sua posição perante a greve. Desta assembleia, foi decidido que haveria uma paralisação da pós no dia 4 de maio em apoio à greve da graduação. Nada é explícito, no comunicado da APG, sobre a adesão da pós à greve. Haverá uma segunda assembleia da APG na quinta-feira, 7 de maio.
Mais Informações
Para informações sobre a greve a nível USP, acompanhe o instagram do DCE (@dceusp). Para informações locais, acompanhe o instagram do CEFISMA (@cefisma) e o site do CEFISMA na aba “Greve 2026” (https://cefisma.com.br/greve-2026/). Para entrar em contato com o Comando de Greve do IFUSP, use o grupo “Converse com o CEFISMA” da Comunidade do CEFISMA no WhatsApp ou o email da atual chapa do CEFISMA (cefismapopular@gmail.com). Para informações institucionais, acompanhe o Jornal da USP para ter notícias vindas da Reitoria da USP (https://jornal.usp.br/home-institucional/) e acompanhe o seu email USP para notícias vinda da Diretoria do IFUSP.
Trabalho Editorial: A equipe do Supernova, junto do Comando de Greve do IFUSP e do CEFISMA, perceberam que era necessário uma edição especial para informar os discentes sobre a greve. Neste primeiro Folhetim Supernova, temos uma retrospectiva dos principais acontecimentos dessas últimas semanas. O texto e trabalho editorial foram feitos por Maria Dressano (dressano@if.usp.br), Hugo Menhem (hugo.menhem@usp.br), Triz Persoli (beatriz.persoli@usp.br), Elisa Torrecilha (etorrecilha@usp.br) e Gabi Maia (maiagabrielle@usp.br). Para entrar em contato com a equipe Supernova, temos o e-mail boletimsupernova@gmail.com. A edição do Boletim Supernova de maio sairá na segunda metade do mês.