Uma das pautas-chave da Greve Geral dos estudantes da USP de 2026 é a situação dos Restaurantes Universitários (bandejões), contando com diversos relatos de irregularidades e falta de qualidade na comida servida, como, por exemplo, os relatos e fotos reunidos pelos estudantes do Baixo Matão e anexados mais abaixo no Dossiê dos Bandejões, que apontam a presença de fragmentos de vidro, larvas (dentre essas, larvas de mosca), lagartas, pedras, mofo, entre outros absurdos. Não é necessária muita argumentação para defender o quão essenciais os bandejões são para a permanência estudantil, e o quanto a qualidade da comida oferecida não é só um absurdo, mas um escárnio aos estudantes que precisam do bandejão para sequer poderem participar das atividades e aulas oferecidas.
Ressalto que a questão da qualidade e não -sanitariedade dos alimentos não é culpa dos funcionários terceirizados, com quem, inclusive, nos compadecemos e nos juntamos à luta, pois muitos enfrentam jornadas exaustivas e remuneração pífia. Além disso, o problema da qualidade dos alimentos vai muito além também das empresas específicas que estão licitadas atualmente ou vigilância maior sobre elas: A PRECARIZAÇÃO É CONSEQUÊNCIA DIRETA DA PRIVATIZAÇÃO.
No momento, os bandejões da USP-Capital são privatizados, com exceção do bandejão Central. Percebe-se nos relatos do Dossiê, inclusive, a brutal diferença na quantidade de relatos entre o Central e qualquer um dos outros, mesmo o Central sendo o que mais tem demanda havendo um número consideravelmente menor de casos.
As justificativas comumente utilizadas para a privatização (por parte, por exemplo, do atual governador Tarcísio de Freitas durante sua campanha eleitoral em 2022) são principalmente duas: que a privatização melhoraria a qualidade do serviço oferecido e que representaria menor custo para o Estado. O objetivo deste texto é o debate sobre ambas, as perspectivas errôneas que elas apresentam e porque uma das principais pautas da greve é, portanto, a reestatização dos Restaurantes Universitários.
A privatização consiste em ceder os direitos de “oferecimento” de um serviço público ou vender uma empresa pública a uma empresa de capital privado. Tal qual toda empresa de capital privado, o objetivo máximo dela é o lucro, ou seja, tornar a subtração entre ganhos e custos cada vez maior, gerando mais dinheiro e permitindo sua manutenção. Em casos como os bandejões e a ViaMobilidade, ainda soma-se os subsídios fornecidos pelo Estado (a cada aluno que come no bandejão e paga 2 reais, por exemplo, a USP paga VALOR SUBSÍDIO).
Podemos começar pela perspectiva do serviço prestado. Assim, visando manter a empresa funcionando e, portanto, lucrativa, é necessário reduzir ao máximo os custos com fornecimento e funcionários. No caso dos funcionários, ocorre o que qualquer estudante que frequente os bandejões pode observar: trabalhadores cansados, explorados e mal remunerados. Quanto ao fornecimento, a comida precisa ser comprada de empresas cada vez mais baratas e de menor qualidade, pois o custo aumenta com o passar dos anos, uma vez, inclusive, que nenhum dos bandejões privatizados tem cozinha industrial (ou seja, a comida não é preparada lá, e sim já vem pronta). Juntando essa tentativa de barateamento de custos comprando alimentos de qualidade pior e flexibilização da fiscalização com esse mesmo objetivo, o resultado é o observado: larvas, mofo, baratas, cabelo, pedras, parafusos, pedaços de vidro, (in)felizmente, objetos não identificados e outros absurdos. A partir disso, a ideia de que a privatização melhoraria a qualidade dos serviços é errônea, pois ela gera esse sucateamento e precarização. Por outro lado, empresas públicas não tem o objetivo de gerar lucro, e sim de atender uma demanda social, o que é infinitamente mais favorável à melhora da qualidade dos serviços, pois o corte de custos deixa de ser essa parte central e fundamental para a manutenção e sobrevivência da empresa.
Observando agora as privatizações do ponto de vista do Estado, a justificativa comum é, de forma simplificada, que o pagamento dos subsídios às empresas sairia mais barato do que a manutenção do serviço pelo próprio Estado. Entretanto, tendo em mente ainda a ideia de que o objetivo principal de uma empresa privada é o lucro, vamos pensar num exemplo numérico. Imagine que, num serviço público hipotético, o consumidor pague 2 reais, e o custo do serviço seja de 8 reais. Se o serviço for estatizado, o Estado teria 6 reais de gasto por pessoa. Porém, caso se tratasse de um serviço privatizado, a necessidade de lucro para a empresa funcionar tornaria necessário que fosse pago pelo Estado os 6 reais de “prejuízo”, adicionado à margem de lucro. Assim, na verdade, o custo por pessoa que o Estado tem ao estatizar um serviço é maior do que ele teria com uma empresa pública. Além disso, a redução de custos, a longo prazo, aumenta o custo com manutenção também, aumentando ainda mais o subsídio necessário. Com isso, podemos concluir que a privatização gera, para o Estado, aumento do custo total por meio dos subsídios, por conta da necessidade de uma margem de lucro para empresas privadas, coisa que não existe para empresas estatais.
Concluindo, a privatização dos Restaurantes Universitários gera, NECESSARIAMENTE, a piora da qualidade da comida e da higiene, por conta dos cortes de custos, e gera também, para a Universidade de São Paulo, um aumento nos gastos a curto e a longo prazo, além de exploração dos funcionários.
Já que a privatização dos bandejões não é benéfica aos estudantes e nem para a USP, nós do Baixo Matão nos perguntamos: a quem ela beneficia?
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