E-mail enviado a todo o corpo docente do IFUSP e as comissões

Prezadas professoras, prezados professores,

Escrevemos em resposta ao e-mail enviado pela Diretoria do IFUSP convocando a retomada das aulas na próxima segunda-feira, 25/05, sob a justificativa de que a continuidade da paralisação levaria à perda do semestre letivo e ao cancelamento das matrículas dos calouros. Entendemos que o e-mail circulou também entre o corpo docente, e por isso julgamos necessário compartilhar diretamente com as senhoras e os senhores um conjunto de informações que, do nosso ponto de vista, desautoriza o tom alarmista da mensagem, e, sobretudo, pedir que considerem, à luz dessas informações, não aderir à convocação de retorno na segunda-feira.

1. O QUE FOI TRATADO NO CoG DE 21/05

A sessão do Conselho de Graduação realizada ontem, com duração de aproximadamente quatro horas, tratou diretamente da questão do calendário acadêmico. Destacamos os seguintes elementos do que ali se passou.

Estava em pauta a aprovação do calendário de 2027. O prof. Girotto (Geografia) pediu o adiamento da pauta, argumentando que não cabe deliberar sobre 2027 sem antes tratar do semestre atual, atravessado pela greve. A representação estudantil reforçou a necessidade de discutir readequação do calendário e abono de faltas para 2026/1, apresentando pareceres favoráveis de diversos Conselhos de Graduação de unidades e notas de direções nesse mesmo sentido. A inclusão formal dessa pauta havia sido solicitada previamente e foi negada. O Pró-Reitor de Graduação, Marcos Neira, suprimiu as demais falas após a manifestação estudantil e adiou a pauta.

A PRG confirmou, em sessão, que a negociação por mediação realizada em 21/05 encaminhou a convocação de um CoG extraordinário, após o fim da greve, para tratar especificamente da readequação do calendário acadêmico de 2026. Essa foi a tônica geral da sessão.

Marcos Neira afirmou expressamente, com registro em áudio, que “o fim ou não da greve é decidido pelos estudantes”, e que, após a próxima reunião de negociação, marcada para segunda-feira, 25/05, sairá nota imediata da PRG sobre o que for tratado.

Cerca de três horas da sessão foram ocupadas por manifestações de professores de diversas unidades em defesa da greve, em tons variados, do conciliatório (FAUD) ao mais incisivo (o próprio CG do IFUSP afirmou que a reitoria já perdeu o apoio estudantil e, se seguir nessa direção, perde também o apoio docente). A única manifestação abertamente contrária à greve veio do CG da Poli (prof. Kurokawa).

A maioria dos professores que se pronunciaram exigiu, da CoG e da PRG, a emissão de nota pública de apoio à greve e de repúdio à violência policial, lembrando a velocidade com que a reitoria havia respondido institucionalmente à ocupação. Essa cobrança foi ignorada pela PRG.

2. O QUE ISSO SIGNIFICA EM RELAÇÃO AO E-MAIL DA DIRETORIA

À luz do que foi tratado no CoG, três pontos precisam ficar claros.

Primeiro, não existe portaria jubilando calouros. O que existe é o comunicado PRG 03/2026, que reproduz trecho do regimento da USP sobre reprovação por falta no primeiro semestre. Para que qualquer estudante ingressante perdesse efetivamente o vínculo, seria necessário que a Universidade reprovasse todo mundo por falta, e o próprio Pró-Reitor de Graduação, em sessão ordinária do CoG, comprometeu-se a convocar reunião extraordinária para rever o calendário. Não há cenário institucional plausível em que se jubile uma turma inteira de calouros.

Segundo, a deliberação sobre o calendário acadêmico é competência do CoG, não da Diretoria de unidade. E o CoG já está, neste momento, com a readequação encaminhada como pauta de sessão extraordinária pós-greve.

Terceiro, enquanto a reitoria e a representação estudantil avançam em uma agenda de negociação, e enquanto professores de diversas unidades cobravam ontem, no CoG, nota de apoio à greve, a Diretoria do IFUSP escolheu o caminho oposto: o de uma convocação de retorno baseada em um cenário de cancelamento de matrículas que não tem respaldo no que está efetivamente sendo tratado nas instâncias competentes.

3. POR QUE PEDIMOS QUE NÃO ADIRAM AO RETORNO NA SEGUNDA-FEIRA

A convocação de retomada de aulas em 25/05, sob esse argumento e nesse momento, tem implicações práticas e políticas que pedimos que ponderem com cuidado.

Segunda-feira, 25/05, é dia de negociação entre a reitoria e a representação estudantil. O próprio Pró-Reitor de Graduação afirmou que sairá nota imediata da PRG sobre o que for tratado. Aderir ao retorno antes desse desfecho equivale a antecipar, na prática, uma decisão que cabe à negociação e à assembleia estudantil. Vale lembrar, também, que a Assembleia da Física está convocada para quarta-feira, 27/05, e que é a instância soberana dos estudantes do IFUSP, a única que pode manter, alterar ou encerrar a greve no instituto, como o próprio Marcos Neira reconheceu em sessão.

A retomada antecipada de aulas durante o período de greve, sem que essas duas etapas (negociação e assembleia) tenham se concluído, tende a deslocar o conflito do espaço institucional para o espaço cotidiano do instituto. Em um momento em que outras unidades já têm registros de tensão associados à tentativa de retomada forçada de aulas, e em que a reitoria já demonstrou, no curso desta greve, disposição para acionar polícia em situações de conflito interno na Universidade, a chance de a situação sair do controle local, com prejuízo para estudantes, para docentes e para a própria instituição, não é desprezível.

A liberdade acadêmica e a responsabilidade didático-pedagógica de cada docente, invocadas no próprio e-mail da Diretoria, são, justamente por isso, as razões pelas quais entendemos que a decisão individual de não retomar a aula presencial na segunda-feira é legítima, juridicamente amparada e, no contexto presente, a postura que melhor preserva a integridade do processo de negociação em curso.

4. O QUE PEDIMOS

Pedimos, em síntese, três coisas.

Que não adiram à convocação de retomada das aulas em 25/05, aguardando o desfecho da reunião de negociação do mesmo dia e da Assembleia da Física de 27/05.

Que considerem subscrever, individualmente ou coletivamente por departamento, manifestações em favor da readequação do calendário e do abono de faltas, somando-se ao conjunto de Conselhos de Graduação e direções de unidade que já se posicionaram nesse sentido e que foram apresentados como respaldo no CoG de 21/05.

Que mantenham aberto o canal de diálogo direto com a representação estudantil. O CEFISMA e o Comando de Greve seguem disponíveis para reuniões com departamentos, áreas e docentes individualmente, para apresentar a pauta da greve, esclarecer dúvidas e construir, em conjunto, uma leitura compartilhada do que está em disputa.

A greve segue ativa. A negociação avança. A decisão sobre seu encerramento cabe à assembleia estudantil, como reconhecido pela própria PRG. Pedimos, por isso, que a próxima segunda-feira seja vivida como o que ela efetivamente é: um dia de negociação, e não um dia de retorno forçado.

Permanecemos à disposição para qualquer esclarecimento.

Atenciosamente,

Comando de Greve do IFUSP e Centro Acadêmico de Física, CEFISMA
Instituto de Física da Universidade de São Paulo
São Paulo, 22 de maio de 2026.

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