Cheguei no Instituto de Física, vindo de transferência de outra unidade da USP, há quase um ano. Me deparei com uma Biblioteca em uma situação dialética: é, ao mesmo tempo, um caso único – com uma reforma estrutural e atuação em espaço temporário já perdurando há 3 anos -; e conhecido para alguém que estuda a história das Bibliotecas no Brasil. Mas, como eu aprendi e vejo diariamente se confirmando, das contradições surgem grandes potenciais de atuação prática.
A Biblioteca do IFUSP, uma das maiores e mais relevantes na área de Física no país (com um acervo que demonstra uma marca forte do debate histórico sobre a questão econômica, ética, e política da energia nuclear no Brasil e no Mundo), está com seu espaço original fechado. E, para um olhar desatento, ou menos familiarizado com os debates
Biblioteconômicos, seu pleno funcionamento pode estar fora de questão. Afinal, como uma Biblioteca pode funcionar em condições ideais vivendo de inquilina?
Mas é justamente ao enfrentar essas dificuldades que as características centrais de uma Biblioteca, ao meu ver, brilham. Até mesmo em condições ainda mais precárias, as Bibliotecas (re)existem: Bibliotecas rurais, de pequenas cidades, populares, comunitárias, ou até bibliotecas viajantes, limitadas a pequenos acervos, como acontece com o BiblioBurro em algumas comunidades na Colômbia. Vivo, há 4 anos, o desafio e as potencialidades de uma Biblioteca de Cursinho Popular, limitada a dois armários. Mas essa condição não restringe a efetivação das características fundamentais de uma Biblioteca, como vinha dizendo.
Biblioteca não é só acervo, não é só prestação de serviço. Biblioteca é comunidade, é olhar no olho dos alunos, oferecer um sorriso, uma orientação, uma conversa sobre como anda o curso. Ainda mais em um ambiente universitário, em que se luta tanto por inclusão e pertencimento: as Bibliotecas são parte fundamental desse movimento.
Ser trabalhador de Biblioteca deve passar por ser capaz de criar relações com a comunidade. É colocar um quebra-cabeças para os alunos que saem estressados das provas, oferecer uma balinha, disponibilizar um mural para quem quiser divulgar algo.
Tudo isso não é pra dizer que eu, e todo o resto da equipe da Biblioteca (se me permitem falar em nome do conjunto por um segundo), não esperamos ansiosamente e trabalhamos todos os dias para, em breve, voltar ao espaço original. Mas que seja uma volta com qualidade, com a consciência tranquila de que nunca paramos nossos serviços, e fizemos o melhor possível dadas as condições materiais.
Sobre o autor:
Felipe Sanches é Bibliotecário do IFUSP.