Na segunda-feira, 3 de novembro, Jeová Assis Gomes, José Roberto Arantes de Almeida e Juan Antônio Carrasco Forrastal foram diplomados no IFUSP, mais de cinquenta anos depois de serem perseguidos e assasinados pela ditadura militar. Leia os discursos feitos pelos alunos que estavam representando os demais discentes e o CEFISMA na mesa da diplomação.
Discurso de Triz Persoli
Sou Triz Persoli, vice-presidente do CEFISMA, e falo em nome do Centro Acadêmico e dos discentes deste Instituto.
Somos herdeiros da história de Jeová Assis Gomes, José Roberto Arantes de Almeida e Juan Antônio Carrasco Forrastal. Nós, estudantes de física e membros do CEFISMA, vivemos o legado de Arantes, que foi presidente do grêmio estudantil da FFCL, de Jeová, militante do movimento estudantil, e de Juan que estava no caminho para concluir o curso de Física Nuclear. Nesses meus anos de IFUSP, vivo a memória de todos que constroem a física no país, uma física compromissada com a sociedade e com a ciência.
Lembro de, durante a minha primeira semana no Instituto de Física, andar pelos corredores do terceiro andar e ler na porta da profa. Vera Bohomoletz uma carta denunciando pesquisadores do Butantã por atividade comunista durante a ditadura, dentre eles seus pais. Descobri que a memória vive. Lembro da exibição do filme ‘O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias’, em que no final, os filhos de Amélia e Ernest Hamburger contaram a história de seus pais na resistência à ditadura militar e de seu comprometimento com o ensino de física. E a memória vive. Lembro de Carlos e Olívia, membros do CEFISMA na época, e lembro de Rebeca, membro do grupo TeHCo, contarem sobre a história do Centro Acadêmico enquanto espaço de resistência à ditadura militar. A memória continua viva. Neste evento de hoje, mesmo tardio, mantemos nosso dever – enquanto USP e enquanto IFUSP – com a memória dos horrores da ditadura e com a memória das vítimas e da resistência, sempre viva.
Poder conhecer essas importantes figuras da história IFUSPiana e da história brasileira, ver essas pessoas diplomadas, é de tamanha importância para nós estudantes. Me torno humilde e honrada ao escutar seus conhecidos discursarem sobre eles e ao falar em memória deles pelos estudantes deste Instituto. O IFUSP ganha vida com os alunos, que trazem seu entusiasmo por física e sua vontade de construir o futuro da ciência e o futuro do país na imagem do que acham ser o certo. Nesta diplomação, somos também lembrados que nós não somos efêmeros e aqui encontramos comunidade entre iguais.
Em cima dos ombros de Jeová, Arantes e Juan, nos comprometemos com a luta pela garantia de um Brasil livre da repressão e opressão da ditadura militar. Iremos sempre nos posicionar contra figuras políticas que exaltam a ditadura, prezando por um governo federal e estadual que respeite a história que pulsa em todos os cantos deste Instituto. Não nos intimidaremos ou deixaremos de nos posicionar perante injustiças, sejam elas a nível nacional ou internacional; como com o massacre que ocorreu no Rio de Janeiro e com o genocídio palestino. Manteremos o corpo discente informado sobre nossa história, sobre a vida dos aqui homenageados, e faremos o possível para engajá-los na construção de um hoje melhor. Estaremos em constante luta por uma universidade popular, que deixe florescer o debate e a produção científica para o avanço de um Brasil soberano.
Não devemos cometer o erro de tentar separar a física da política, a universidade da conjuntura nacional. Ser cientista no Brasil é um ato político, não somos inocentes perante nossas responsabilidades com a sociedade e perante as expectativas que nos são postas. Despolitizar a ciência é parte de uma agenda de controle sobre o que podemos pesquisar e sobre quem terá esse direito. Não estão distantes de nós os ataques à ciência que ocorreram durante a pandemia da COVID-19, pelo mesmo grupo que tenta acobertar os crimes da ditadura. Não podemos esquecer do legado de Mário Schenberg, Cesar Lattes, Elisa Frota Pessoa, Jayme Tiomno, José Leite Lopes, Amélia e Ernest Hamburger entre outros professores que, ao contribuir para uma ciência brasileira soberana, também foram perseguidos pela ditadura militar.
A perseguição e assassinato de Jeová, Arantes e Juan é uma tragédia sem tamanho, sem relativismo e sem conciliação. Que agora, ao procurar heróis, possamos olhar para os homenageados como um reflexo nosso. Que não busquemos nomes no outro lado do mundo; devemos usar nosso poder de imortalidade e produção simbólica naqueles que foram, assim como nós, físicos latinos em uma universidade pública construindo o futuro da ciência. Levo, e sei que meus colegas também levarão, as histórias destes três homens, agora físicos, junto de mim em minha caminhada como futura física. Conheço seus rostos e suas lutas, compartilho de seus anseios e de sua alma mater e herdo um futuro melhor, sempre em reconhecimento de sua trágica história.
Discurso de Nadson Vital
Boa tarde a todos e todas! Primeiramente, gostaria de saudar o espaço e cumprimentar todos na mesa, todos os presentes familiares, autoridades e membros do movimento estudantil. Eu me chamo Nadson, faço parte do Centro Acadêmico de Física (CEFISMA) e estive pensando no que dizer hoje, em uma confraternização de um evento de memória de três companheiros que tiveram sua vida ceifada pela repressão. Fiquei pensando em fazer uma fala que pudesse honrar a memória do Jeová, José e Juan Antônio, e acho que a melhor forma que encontrei de fazer isso é lembrando um pouco dos motivos pelos quais eles lutavam, refletindo sobre o que essas memórias nos exigem em termos de ação no presente.
O CEFISMA, que nasceu como Centro Acadêmico de Física e Matemática da antiga Escola de Filosofia, Ciências e Letras, sempre foi um espaço de luta. Desde sua fundação em 1959, o CEFISMA foi um lugar de organização política e de disputa de uma universidade pública a serviço do povo, que pensasse um Brasil com margens para a democracia, com margens para desenvolvimento Social, com margens para igualdade. Infelizmente, o que vimos como consequência foi uma truculenta resposta do braço armado do Estado burguês; durante os tempos de ditadura não havia espaço para florescer as demandas do povo brasileiro.
Na década de 60, com a implementação do AI-5, movimentos como o nosso foram brutalmente atacados. Aqui, muitos de nós ainda somos reféns de uma arquitetura universitária que foi desenhada para isolar, para dividir, para enfraquecer qualquer tentativa de organização coletiva. E não é apenas a estrutura da USP, é uma estrutura maior, imposta por um sistema que ainda tenta, de alguma forma, silenciar as vozes que se levantam contra o status quo.
A repressão que atingiu o campo da Física brasileira não foi um acaso. Ela foi parte de um projeto muito maior, um projeto que entendia a ciência como um campo neutro, e que, ao contrário, a colocava a serviço de interesses autoritários e do capital. A luta de professores e estudantes da Física não era apenas acadêmica, mas também política, porque a ciência, como qualquer outro campo do saber, é um espaço de disputa histórica e social. A tentativa de neutralizar essa ciência crítica não pode ser esquecida. E a melhor forma de honrar as memórias daqueles que tombaram é, sem dúvida, manter acesa a resistência e o compromisso com a justiça que a classe trabalhadora tanto anseia.
De modo a tentar ententer o que justifica que ainda nos vemos como campo de oposição da ditadura até hoje. As pessoas resistem porque reconhecem que a história não se move sozinha, que o avanço da ciência e da liberdade depende da ação consciente dos que recusam a passividade. Resistir é afirmar que o conhecimento não pode estar a serviço da opressão, mas sim da emancipação humana. Essa resistência, ao atravessar gerações, potencializa o trabalho dos físicos brasileiros ao lembrar que cada pesquisa, cada aula, cada laboratório pode ser também um espaço de transformação social. Quando a Física se enraíza na realidade do povo, ela ganha novo sentido — torna-se instrumento de soberania, de desenvolvimento independente e de reconstrução do imaginário que temos de nação.
A repressão atingiu de forma particular o campo da Física brasileira. Muitos professores e estudantes foram cassados, exilados, presos e torturados por defenderem que a ciência não pode ser neutra e deve contribuir para a soberania nacional. Entre eles, destacam-se nomes como Mário Schenberg com sua perspectiva humanista da ciência, José Leite Lopes, Elisa Frota-Pessoa foi fundamental nos avanços das emulsões nucleares e uma das primeiras mulheres formadas em física no país, Marcelo Damy, Amélia Império que inclusive nomeia o nosso espaço estudantil, Ernst Hamburger um divulgador científico fenomenal e que cooperou tanto para o interesse das pessoas com projetos com a estação ciência e tantos outros, que ousaram afirmar que a Física e o conhecimento científico só têm valor quando colocados a serviço do povo, e não de interesses externos ou de regimes autoritários. A trajetória desses indivíduos mostra que a ciência, longe de ser um espaço apolítico, é um campo de disputa social e histórica, e que aqueles que resistem à opressão carregam a responsabilidade de construir conhecimento crítico e na perspectiva de emancipação da nossa classe.
Muitos desses estudantes, que hoje lembramos com reverência, foram vítimas de uma violência estatal que visava não apenas a destruição física, mas também a destruição das ideias, das possibilidades de um Brasil mais justo e democrático. Como Jeová Gomes, José Roberto Arantes de Almeida e Juan Carrasco, que não foram apenas perseguidos por suas ideias, mas também tentaram silenciá-los da história. Acontece que essa história não pode ser silenciada, e é justamente por isso que nós, os que ainda defendem a universidade do povo e para o povo, temos o dever de reconstruir essa memória.
Essas histórias nos lembram que vivemos em uma sociedade marcada por violência estrutural, histórica e simbólica, e o silêncio sobre o passado é parte dessa violência. Negar o passado ou não resolvê-lo é permitir que ele retorne, muitas vezes de forma mais perversa. Como exemplo, há poucos dias tivemos a chacina no Rio de Janeiro, que deixou cerca de 130 mortos, entre estudantes, pais e mães, colegas. Cada diploma entregue hoje é, portanto, mais do que um gesto simbólico: é um chamado contra o esquecimento, um raio de memória que ilumina as gerações presentes e futuras, reafirmando que a história não é uma linha reta de progresso, mas um campo de disputa em que o passado irrompe no presente e exige a nossa continuidade na luta.
E mesmo que os usurpadores da América Latina tentem falsear com a verdade, ela é única. A verdade é que, apesar de tudo, a repressão não conseguiu apagar o que esses estudantes representavam. Eles não foram apenas vítimas de um regime violento, mas também símbolos de uma luta que segue viva. O CEFISMA, herdeiro dessa resistência, continua a reafirmar que a luta estudantil é inseparável da luta do povo, e que a ciência não pode ser neutra. Como disseram aqueles que pensaram antes de nós, cada geração tem a responsabilidade de libertar a anterior do seu silêncio, e é essa a nossa tarefa agora.
Aproveitar essas oportunidades é compreender que podem ser as únicas; esta pode ser a última chance de reparar injustiças, reconhecer trajetórias e fortalecer a memória. Devemos, enquanto latino-americanos, compreender que o que se fez ao degenerar o caráter exploratório e emancipador da Física durante a ditadura empresarial-militar foi trair essa trajetória – e nós, herdeiros da oposição histórica, reafirmamos que a luta estudantil é parte inseparável da luta do povo. Afirmamos, também, que a Física não é neutra, que a ciência deve servir à classe trabalhadora, e que não há equação que escape às determinações da história.
Como já disseram os que pensaram antes de nós, cada geração é convocada a libertar a anterior de seu silêncio – que este ato, então, seja o nosso gesto de libertação, a nossa fórmula de resistência escrita com giz e memória coletiva.
Quando entregamos diplomas que deveriam ter sido entregues há muito tempo, estamos realizando um ato de resistência. Estamos, finalmente, fazendo justiça. Cada diploma é mais do que um símbolo de conquista acadêmica. Ele é um gesto de reparação histórica, um raio de memória que ilumina as gerações presentes e futuras. E enquanto a memória dos que tombaram, dos que resistiram, se mantiver viva, a Física brasileira, e o movimento estudantil, continuarão sendo um campo de luta pela verdadeira liberdade, pela justiça e pela soberania (não abstrata). Porque, no fim, a luta de ontem ainda é a nossa luta de hoje.
Que os nomes de Jeová Gomes, José Roberto Arantes de Almeida, Juan Carrasco Forrastal e de todos os físicos perseguidos e assassinados permaneçam vivos em nossa memória, não como lembrança passiva, mas como testemunho da coragem que atravessou prisões, exílios e torturas. Que cada diploma devolvido hoje seja a prova de que a ciência brasileira sempre esteve ligada à luta por liberdade, justiça e soberania; que cada equação, cada descoberta e cada aula carregam a marca da resistência e da responsabilidade social, mostrando que estudar e produzir conhecimento nunca foi um ato neutro, mas sempre um gesto de luta, uma reconstrução de vidas e de possibilidades que a ditadura tentou apagar. Enquanto houver memória desses que tombaram e desses que resistiram, a Física brasileira continuará sendo uma ciência viva, crítica e insurgente, capaz de transformar dor em história, ausência em lembrança e silêncio, em voz altiva para afugentar os verdadeiros covardes em suas fardas.
Fotos do evento
Veja as fotos da diplomação por Daniel Garcia.




Sobre os autores: Triz, Elisa e Nadson – escritores dos discursos – são membros do CEFISMA e representaram os estudantes do IFUSP, junto de Pedro Tavares, na mesa da diplomação. Daniel Garcia é fotografo e estava no evento pela ADUSP (Associação de Docentes da USP).