A ocupação da Reitoria da USP
A fim de entender os acontecimentos que levaram à ocupação da Reitoria da USP durante esta última quinta-feira (07/05), a equipe Supernova foi até o prédio (então) ocupado nesta última sexta (8) e entrevistou três diretoras do DCE livre da USP, um militante independente anarquista, integrantes da frente de independência marimbondo e o Arak, membro do CEFISMA que esteve presente durante o desenrolar do ato do dia 7 que deu início à ocupação. Este texto usa como base estes relatos, a divulgação do DCE da USP (por meio de seu instagram) e do Jornal da USP.

De acordo com a divulgação do DCE, às 5h da quinta-feira começa um “piquete na Reitoria pela reabertura da mesa de negociação” e às 14h começa o ato na frente da Reitoria com, também, o objetivo de exigir a reabertura da mesa de negociação e de denunciar os absurdos que levaram ao início da greve. Durante o piquete e o ato, os manifestantes e militantes presentes se dividiram entre as quatro entradas da Reitoria para trancá-la por meio de uma corrente humana, mas ainda permitindo a entrada de pessoas terceirizadas no prédio, algo que é prática do SINTUSP para proteger estes trabalhadores.
É importante frisar que o ato nem o piquete tinham como pautas a ocupação do prédio da Reitoria. Os entrevistados afirmam que já existia um sentimento de revolta e estavam cientes da possibilidade, mas que a decisão de ocupar foi tomada somente durante o ato.

De acordo com Molotov (militante independente anarquista),
Havia vários princípios de ocupação, várias teorias sobre como isso poderia se dar. Não havia uma clareza, até o momento de acontecer, de ninguém, conversando bem claro que não tinha mesmo, se a ocupação iria de fato acontecer ou não. No fim das contas, foi meio que um desenrolar natural, também somado a uma conivência, a uma aceitação do DCE [em ocupar].

E, de acordo com a Júlia, diretora do DCE,
Na Assembleia Geral [que ocorreu no dia 6 na FAU], a gente aprovou que iria no ato lutar pela abertura da mesa de negociação até as últimas consequências. E eu acho que ontem, durante o ato, a gente não fez nada menos do que lidar com as propostas e as atitudes que tomamos antes.
Quando levantado o questionamento acerca da ocupação ter sido algo premeditado ou o objetivo do ato, a diretora do DCE e diretora de Políticas Educacionais da UNE Bianca,
A nossa posição é contrária de ocupações por princípio, porque a gente acha que tem táticas para determinados momentos da luta que a gente precisa a partir da conjuntura, a partir do desenrolar da luta, ir mudando a nossa tática. Então, nenhuma tática nossa é por princípio […]. Ela [a base do movimento] sente essa necessidade de ocupar e, não à toa ela ocupa, mas [a base do movimento] não sente que, por exemplo, essa ocupação deve ser eterna, mas que ela deve ter um fim, que [neste caso] é quando a gente conseguir negociar com a Reitoria.

Os motivos para que os presentes no ato voltarem sua ação política para a ocupação derivam dos motivos para o ato, com destaque a reabertura da mesa de negociação. De acordo com a Dani, diretora do DCE,
Eu acho que foi a transição da revolta da indignação de você tá desde às 5 horas da manhã esperando uma resposta e você chegar às 4 horas da tarde, que é no horário que era para ser negociação, e o Reitor nem sequer chegar a dar um oi. Até agora nem o DCE, nem nenhum CA (Centro Acadêmico) recebeu nenhuma mensagem do Reitor ou do gabinete. Ficamos sabendo como todo mundo pela mídia que o Reitor não iria negociar mais com a gente. Então, a transição [do ato para ocupação] acho que foi na verdade um acúmulo de revolta dos estudantes, de mistura de cansaço, de agonia, de não aguentar mais isso, sabe?

A entrada na Reitoria, que acontece com os estudantes saltando a grade em frente ao prédio às 16h20, começa com os militantes organizados do movimento estudantil liderando e os manifestantes independentes sendo instruídos a ficarem de escanteio – a única exceção foi os membros da frente de independência marimbondo, que fizeram questão de tomar parte da frente da movimentação.
De acordo com Arak, a ocupação só começou depois que os trabalhadores terceirizados já tinham saído do prédio, com o auxílio de um corredor humano protegendo eles, visto que a polícia militar já tinha chegado no local. Então, depois dos estudantes pularem a grade, eles a abrem por dentro, para que os demais entrem e ocupem a entrada da Reitoria, e derrubam as portas de vidro da entrada do prédio.
Com os estudantes dentro do prédio, eles barram as demais portas, os elevadores e escadas; demais andares do prédio não são explorados nem ocupados, toda a ação ficou concentrada num espaço pequeno da entrada da Reitoria. Os policiais militares já estavam numa parte do térreo do prédio – que tinha computadores e outros itens de valor – e ficaram de guarda nesta parte durante toda a duração da ocupação. Sobre a entrada da polícia nesta parte parte do prédio, Molotov relata,
Aquilo aconteceu [a entrada dos policiais], foi realmente rápido, foi um pouco de surpresa. Todo mundo estava gritando, foi tipo questão de uns 15 ou 20 minutos, já tinha a polícia lá. Ou pelo menos foi a minha impressão, que realmente na adrenalina, tal, pode ser que tenha medido o tempo errado, mas minha impressão é que foi bem rápido.
Com algumas horas desde o início da movimentação, alguns estudantes trazem a “geodésica da ECA” para a frente da Reitoria – que se torna, depois, um espaço para atividades culturais e para colocar cartazes políticos.

Concomitante com toda a ação, a quantidade de policiais aumenta intensamente; estudantes presentes estimam que chegou a ter 78 policiais militares. Os alunos relataram que os policiais estavam com spray de pimenta, cassetetes, escudos e gás lacrimogêneo. Começa a haver uma tensão maior entre os estudantes e os policiais, até que a Comissão Nacional dos Direitos Humanos chega no local e desescala a situação. O Arak relata,
Eles [os policiais militares], em algum momento, bateram os escudos no chão para tentar provocar medo. A gente respondeu isso com fogo de artifício, mas já estávamos articulados enquanto DCE. Um outro fato também é que eles estavam pedindo para os policiais entrarem, o que já seria um fato político muito intenso, então chamamos a coletiva de imprensa, que ficou duas horas no lugar, e a Comissão Nacional dos Direitos Humanos.
A coletiva de imprensa citada está disponível no instagram do DCE. De acordo com a Bianca,
Então, a gente fez também uma coletiva de imprensa, que eu acho que é um marco importante, para a gente conseguir contrapor o que a Reitoria tem feito e colocado para mídia, que é os vândalos dos estudantes que não querem o diálogo, enquanto que a gente só está ocupando a Reitoria porque a própria Reitoria se negou a abrir a mesa de negociação com a gente.
Ocorre, também na noite de quinta-feira, uma assembleia com os estudantes presentes no prédio da Reitoria para organizar as demandas da ocupação e decidir questões organizacionais. Foi tirada, desta assembleia, que a condição para o fim da ocupação seria a reabertura da mesa de negociação com a Reitoria. Desta assembleia também foi determinado que a ocupação iria se limitar ao saguão de entrada e foram criadas comissões de segurança, cultura, alimentação e limpeza. Também foi determinada a proibição de qualquer tipo de armamento ou drogas dentro da ocupação.
Na manhã de sexta-feira (8), a Reitoria cortou a água e energia no prédio. Apesar disso, os estudantes seguem com suas atividades, tendo durante a sexta-feira e o sábado diversas programações culturais na ocupação, com destaque para a presença de Sophia Chablau (dia 9), que tocou dentro da geodésica da ECA.
A operação policial no domingo de dia das mães
Durante a madrugada do domingo de dia das mães (10/05), ocorreu uma operação policial para expulsar os estudantes do prédio da Reitora. De acordo com relatos de discentes do IFUSP que estavam presentes durante a operação, a polícia militar chegou na Reitoria perto da 1h da madrugada e entrou no prédio perto das 4h. Eles acordam e expulsam os estudantes, muitos saem do local sem seus pertences. Também é relatado que prédio foi enchido de gás lacrimogêneo e foi formado um corredor polones pelos policiais na saída do prédio, de tal forma que os estudantes eram agredidos conforme tentavam sair do local. Um dos alunos do IFUSP relata,
Na entrada do saguão [do prédio da Reitoria], minha prioridade era catar meu celular antes de sair para avisar minha mãe […]. Quando me abaixei para procurar meu celular nessa régua [que tinham os demais celulares], senti dois golpes nas minhas costas, não sabia do que era, a adrenalina não deixou doer, saí correndo imediatamente […]. Era uma dor que doía toda hora que eu inspirava o ar, todo lado direito superior do meu corpo doía.

Os estudantes seguiram o protocolo estabelecido pela comissão de segurança da ocupação e foram para o AMORCRUSP. Os estudantes do IFUSP ainda relatam que, segundo os advogados [do CEFISMA e da UJC/PCBR], o Major disse que a ordem para a operação “veio de cima”. Notaram, também, que não havia carta de reintegração de posse no Ministério Público e que a realização de operações de desocupação entre das 21h até às 5h é ilegal.
Desta operação, 4 estudantes foram detidos por, de acordo com a polícia militar, dano ao patrimônio público e alteração de limites. Eles foram levados para o 7° DP (distrito policial) da Lapa, interrogados sem a presença de um advogado, tiveram seus bens eletrônicos apreendidos – algo que foi apontado pelos advogados, posteriormente, como ilegal pois não havia indício de crime cibernetico – e liberados por volta das 7h. Houve um ato de vigília pela soltura por parte de diversos outros estudantes da USP enquanto os colegas detidos ainda não tinham sido soltos.
Ainda no dia 10, a Reitoria da USP solta uma nota – disponível no Jornal da USP como “Nota sobre processo de reintegração de posse do prédio da Reitoria”. De acordo com esta nota, a Reitoria informou a Secretaria de Segurança Pública sobre a ocupação ainda na quinta-feira (7) mas que não houve comunicação prévia da Polícia Militar à Reitoria com relação a operação de domingo.

Na segunda-feira (12), a diretoria do IFUSP solta uma nota sobre a desocupação da Reitoria em que manifesta
[A Diretoria do IFUSP manifesta] profunda consternação diante da operação policial realizada na USP para a desocupação do prédio da Reitoria ocupado por estudantes […]. Os relatos de violência e de estudantes feridos são graves e incompatíveis com os princípios democráticos, acadêmicos e humanistas que devem orientar a vida universitária. Adicionalmente, o fato de que a administração central da USP declarou não ter sido informada previamente da operação policial torna esta ação descabida.
Porém, Newton Lima, ex-reitor da UFSCar, contrapõe, na sua nota de repúdio publicada em seu instagram, a declaração de a Reitoria não foi informada previamente dizendo,
[O Reitor da USP] resolveu partir para a ignorância, para a violência, e pedir reintegração de posse da reitoria da USP em São Paulo Capital para a Secretaria de Segurança Pública – nunca vi isso na minha vida – afrontando não só o princípio da autonomia universitária, porque só o reitor pode autorizar forças policiais entrarem nos limites do Campus Universitário, e de ter apelado a violência como tentativa de solucionar o problema.
Também nesta segunda-feira, a Polícia Militar ainda está presente na frente do prédio da Reitoria.

O ato no CRUESP
O ato que houve nessa última segunda-feira (11/05), já estava previsto para acontecer desde antes da operação policial do dia 10, e era motivado por a uma reunião do CRUESP (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas), com o objetivo de negociar questões salariais para as Universidades paulistas. A reunião foi desmarcada na manhã do dia 11 mas o ato ocorreu como previsto, em partes como uma resposta à operação policial do dia anterior mas, também, para ser um espaço para se posicionar contra a privatização e denunciar a precarização do ensino público .
Como a manifestação ocorreu na praça da República, integrantes do movimento estudantil e do SINTUSP se organizaram para disponibilizar ônibus de transporte até o local, saindo às 13h para que a reunião ocorresse às 14h no local. Estudantes da UNESP e da Unicamp também estiveram presentes no ato, muitos vindo do interior do estado.
No começo do ato, houve um conflito rápido entre os vereadores Rubinho Nunes e Adrilles Jorge, ambos da União, com estudantes do movimento. A discussão foi rapidamente separada pela polícia que estava presente com spray de pimenta e gás de efeito moral.
Após essa desordem inicial, o ato prosseguiu caminhando em direção à Paulista, ocupando toda rua, com carros de polícia no início e final da movimentação para a contingência de danos ao trânsito, além dos estudantes organizados que direcionavam e auxiliavam na passeata.
O ato contou com centenas de pessoas, sendo estudantes da USP, Unicamp e UNESP e funcionários públicos. Os manifestantes cantaram versos provocativos sobre o desaparecimento do Reitor Aluisio, versos afirmando que os estudantes estão nas ruas para a classe trabalhadora poder estudar e versos denunciando o dinheiro gasto pelo estado com empresários mas não com a educação. Além disso, também balançaram cartazes e bandeiras com arte contra a violência e opressão sofridas na madrugada do dia das mães.
A caminhada se deu até a Faculdade de Saúde Pública (FSP-USP), onde todos se sentaram e alguns dos presentes discursaram sobre as pautas exigidas e como forma de esclarecer quais seriam os próximos passos, por exemplo a exigência da reabertura da mesa de negociação com a Reitoria, a continuidade da greve e unificação estadual em defesa do serviço público.
As assembleias do IFUSP e do DCE
Nessa segunda (11/05) houve a terceira assembleia no IFUSP para a discussão e votação a respeito da continuidade da greve, que já soma quase um mês – destacamos que neste período só foram somados 16 dias efetivos de aulas perdidas. A assembleia ocorreu em dois horários, às 10h e às 19h, sem ponto online e com voto não público. O resultado da votação foi favorável à continuidade da greve, contando com 153 a favor, 27 contrários e 0 abstenções.
Além da votação, na assembleia foi feito um informe pelo DCE acerca de uma nota pública das Comissões de Graduação da USP – foi confirmado com o RD (representante discente) da CG do IFUSP que esta nota chegou a ciência da nossa CG. Nesta nota, é feito um repúdio diante a ação violenta da Polícia Militar no domingo (10), faz um pedido para que a organização da recomposição das atividades seja construída internamente em cada Unidade e reafirma a importância da retomada do diálogo. O presidente da CG do IFUSP não assinou a nota pública.
Também na segunda (11), ocorre a assembleia do DCE na FAU. Nesta assembleia, também é votado entre os presentes pela continuação da greve a nível USP. Além dos estudantes da USP, destacamos a presença da deputada federal Sâmia Bomfim na assembleia em apoio às reivindicações do movimento estudantil e em solidariedade pela ação truculenta da Polícia Militar do dia anterior.
Desta assembleia, diversas propostas são aprovadas. Damos destaque à:
- Realizar catracaços nos bandejões terceirizados nesta semana
- Consultar o jurídico do ME (movimento estudantil) sobre a possibilidade de tomar medida cautelar no STF por inconstitucionalidade da ação da PM dentro do Campus Butantã.