Capítulo 1: Todo fim é um começo
Era uma manhã de ventos leves e os raios do sol caiam carinhosamente sobre a
mata da Serra da Mantiqueira. Os inúmeros tons de verde das folhas eram
agraciados pelo amarelo quase dourado da alvorada. A cantoria dos trinca-ferros,
curiós e seus colegas podia ser ouvida por todo o vale.
Abaixo dos montes irregulares da serra, uma cidade de pequenas casas brancas
com telhas vermelhas começava a acordar. A rua principal deste município era uma
larga estrutura feita com maciças pedras cinzas de tamanhos variados, fortemente
alojadas no chão. Estreitas calçadas de terra, com um limiar de granito,
demarcavam onde a maioria dos pedestres passava. Na estrada, algumas carroças
puxadas por jegues e jumentos, levando verduras e ovos, já transitavam. A subida,
extremamente íngreme, levava até os morros. Tanto as pessoas quanto os animais
caminhavam com cuidado por seus caminhos. Barro seco ou pedra, nenhum
oferecia muita segurança.
Em meio à singela, mas já ativa movimentação da manhã, dois homens de chapéu
vestidos com camisa, gravata e sapato social andavam cambaleando pela rua. Suas
roupas, de tecido bem cortado, estavam completamente amassadas, como se tivessem sido usadas de pano de chão. Faltavam alguns botões em ambos. Seus
sapatos estavam cobertos por uma lama já incrustada há algumas horas. Os
chapéus, no estilo trilby, eram as únicas peças intactas em sua posse.
Quem passava pela rua olhava de relance as duas figuras. Dois homens naquele
estilo, cambaleando pela rua… Dois bebuns? Não existia nenhuma empresa de
grande porte na cidade. Quando os dois chegaram, todos que os viam juntavam
dois com dois e os julgavam pelo que aparentavam ser: funcionários públicos,
vindos para fazer sabe-se lá o quê. Quando perguntados, só diziam que estavam
numa investigação dos terrenos locais. Investigação de terreno? Isso existia? Iam
expropriar alguém? As dúvidas só cresciam naqueles últimos dias, e as perguntas
estranhas que os dois homens faziam pela cidade não ajudavam em nada.
Agora, com os dois andando bêbados por aí, a sua fama certamente não
melhoraria. Muitos já torciam para que fossem embora logo e deixassem o povo em paz.
Porém, os dois funcionários estavam cansados demais para reparar em qualquer
detalhe mínimo ou nos olhares estranhos. Ambos vestiam o mesmo conjunto de
roupas marrons, diferenciados apenas pela cor da camisa. O de camisa azul-clara tinha em torno de 1,70 m e andava curvado no momento, sempre querendo apoiar a mão na parede, mas evitando no último segundo. Era um homem branco, de
aspecto esquelético, com olhos castanhos pequenos para o rosto. O de camisa
branca era um homem negro com uma barba curta, mas ainda assim claramente
por fazer. Ele era alto e andava completamente ereto, em oposição a seu
companheiro. Porém, seus passos eram erráticos e, mesmo que estivesse indo reto,
parecia que tinha que se conter para não seguir outro caminho ou cair de vez.
Com dificuldade, eles finalmente param em frente a um dos prédios no meio da
subida. Uma estrutura simples, quase que inteiramente feita de madeira e, por isso,
destacando-se dos arredores. Na placa acima, em letras metálicas, já há muito
escurecidas pela oxidação, e quase invisíveis contra o fundo também escuro da
madeira antiga, estava escrito: “Padaria São Bento”.
Os dois encararam a entrada por alguns segundos. Com tantas olheiras, ficava
impossível discernir seus sentimentos enquanto observavam em silêncio a porta. O
de camisa azul se endireitou e adentrou, seguido pelo colega. O primeiro passa pelo balcão e simplesmente fala.
“Dois cafés puros.”
E se senta numa mesa perto da janela, na lateral do estabelecimento. O de camisa
branca passa pelo balcão, faz um aceno de saudação à jovem atendente e diz.
“Com licença, o meu com uma colher de açúcar, e vou querer um pão na chapa
também. Muito obrigado.”
Em seguida, senta-se de frente para o companheiro e ouve.
“Haaaa… açúcar, você nunca aprende. Além disso, não sei como consegue comer
logo depois dessa noite.”
Os poços sem fundo que o homem de branco e marrom usava para observar seu
colega de alguma forma se aprofundavam enquanto a fala se estendia. Lentamente, os judiados e marcados músculos de sua face começaram a se mover, e uma voz profunda saiu de sua garganta.
“Comida na barriga ajuda a lidar com qualquer situação, Roberto. E eu realmente
não preciso das suas opiniões específicas de como e quando eu deveria comer e
beber.”
O homem de azul simplesmente ergue o olhar e diz.
“Você que sabe, Carlos…”
E deita a cabeça sobre a mesa, fechando os olhos.
De um momento para outro, os olhos de Carlos ganharam um certo brilho; um pensamento claramente percorria sua mente. Ele se pronuncia numa voz ainda forte, mas de certa forma tenra.
“Eu… tenho que te contar uma coisa… e acho que não vai ter melhor momento do
que agora.”
Sem descolar a testa da mesa, Roberto responde com um simples.
“…diga.”
Fechando os olhos e respirando fundo, Carlos se pronuncia.
“Eu vou me afastar… por um tempo.”
Roberto inicialmente respondeu com um grunhido. Voltando o olhar para seu
parceiro, mas sem tirar o rosto da mesa, ele diz.
“Isso é sobre o seu ‘filho’?”
Roberto visivelmente faz aspas com as mãos quando fala a palavra “filho”. Carlos
revira os olhos em reação ao gesto. Num tom levemente mais alto, responde.
“Eu já tive o suficiente das suas opiniões por hoje… talvez pela vida toda, na
verdade. Só fique sabendo que vou ficar fora por um tempo e aceite isso.”
O homem de camisa azul simplesmente fecha os olhos, como se estivesse tentando dormir, e apoia a testa na mesa. Sua resposta veio depois de um minuto de silêncio, ainda em seu meio sono.
“Ok, cansei de tentar te convencer sobre isso. Siga como desejar, só não reclame
comigo quando as consequências vierem.”
Depois de outro grunhido, Roberto volta a falar.
“Não é como se você não desaparecesse para lidar com isso de tempos em tempos. Mais do mesmo.”
Carlos dá outra pausa, respira profundamente com os olhos fechados e, finalmente,
fala como se estivesse cuspindo um caroço entalado na garganta.
“Falando nas minhas saídas passadas… em uma delas, de alguns anos atrás, eu
estive numa comunidade afastada onde encontrei um jovem promissor. Eu o indiquei para a nossa… singela escola. Ele acabou de terminar seu treinamento,
com ótimas notas por sinal, e vai começar o estágio logo mais. Para isso, ele vai
precisar de um supervisor pessoal… na minha ausência…foi decidido que este será
você.”
“O QUÊ!?”
A resposta de Roberto foi rápida e visceral. Ele agilmente levantou o rosto para o
nível de seu interlocutor, trazendo um círculo vermelho na testa de tanto repousá-la na mesa. Roberto começa a gritar, assustando até os transeuntes do outro lado da janela com seu rugido.
Carlos se pronunciou num tom concentrado, com sua voz profunda.
“Que tal deixar a mocinha servir os pratos antes de continuar o que você quer
continuar?”
Olhando para o lado, Roberto se deparou com a atendente, que tinha um olhar
levemente arregalado e o cabelo, que há alguns minutos estava perfeitamente arrumado num coque, agora espalhado pelos ombros. Engolindo em seco, ele diz.
“Pode deixar as coisas na mesa, nós nos viramos.”
Rapidamente, a atendente deixou os pratos de cada pedido corretamente em seus
lugares e saiu silenciosamente. Quando ela começou a se afastar, Carlos, com um
sorriso, fala.
“Obrigado!”
Olhando para todos os lados, Roberto se recompõe por um segundo e fala
“É… obrigado.”
Os dois colegas se encaravam. Roberto com um olhar resoluto; seus ombros ainda
estavam caídos, suas pálpebras tremiam, mas seus olhos se mantinham centrados.
Em contraste, Carlos não conseguia manter a visão num lugar só; sua postura
estava ereta, sua respiração puxava seu peitoral um pouco mais para frente do que
antes. O primeiro a ter a palavra foi o enfurecido.
“Eu não sou um instrutor, não me registrei como instrutor, não quero ser um
instrutor. Que maldição aconteceu nos registros?”
Carlos deu uma boa olhada no café esfumaçado na mesa. A bebida doce e a
sensação de queimação passando por sua garganta lhe trouxeram o conforto de
vícios passados. Reenergizado, ele fala em tom estéril.
“Todos os profissionais têm que oferecer treinamento em algum momento. Você só
adiou o que tinha que fazer de qualquer maneira. Nenhuma das negociações que
você tentou com administrações passadas tinha a menor chance de dar certo.”
Da mesma maneira que um animal encurralado, Roberto olhava para os arredores.
Como se estivesse buscando no mundo físico uma saída para a situação abstrata.
Ele finalmente veio com um argumento.
“Mas a papelada não existe, eu tenho certeza disso! Quem autorizou isso!?”
Carlos terminou o café na segunda golada e, enquanto se preparava para comer
seu pão, respondeu.
“Clara e eu discutimos a situação e foi decidido que já era mais do que hora, e a
oportunidade havia aparecido para realizá-la.”
Ele deu uma mordida em seu pão, mastigou um pouco e falou sorrindo.
“Você ficaria surpreso em saber o quão fácil é resolver problemas de papelada
quando a pessoa certa tem vontade. No final, eu só fiquei de te avisar.”
Roberto abaixa a cabeça, apoia os cotovelos na mesa e o queixo nas mãos. Com
um grunhido, ele exprime.
“Hum… Clara… tinha que ser ela. Eu não tenho nada para ensinar e eu não quero
massa cinzenta chovendo no meu casaco bom no meio do campo.”
Carlos observou seu companheiro encarar a mesa e continuar a ignorar seu café.
Ele respirou lentamente; a cafeína começava a agir em sua mente, e falou a
primeira coisa que pensou.
“Você sabe por que eu sempre escolho você para ser meu parceiro?”
Com um olhar profundo voltado para a janela, Roberto acompanhava casualmente o andar na viela ao lado. Sem se voltar ao outro, ele diz.
“Não sei. Talvez porque eu atiro bem e meu charme seja inegável.”
Rapidamente, Carlos responde.
“Você sabe quando seguir as regras e quando buscar coisas novas. Você tem um
certo respeito pelo diferente. Por mais que sua personalidade faça com que você
tenha que interagir com desdém pelas coisas. Você tem o que ensinar, Roberto.”
Carlos dá um sorriso, certo de que o colega observava de canto de olho, e
continuou a falar.
“E tenho certeza que você consegue manter um jovem vivo por alguns meses.”
Finalmente, Roberto voltou a olhar para o colega. Ele começa a bicar seu café e
fala.
“Não é como se eu tivesse muita escolha, pelo visto. Então vou tentar.”
Subitamente, o barulho de metal rangendo contra metal tomou o ar. Os dois tomam um leve susto, e Roberto rapidamente checa o bolso interno de seu casaco.
Rapidamente, ele apresentou um objeto composto por vários círculos concêntricos
de metal amarelo, cada círculo contendo marcas próprias, e uma seta com alguns
detalhes em seu centro. Naquele momento, tanto os círculos quanto a seta giravam incontrolavelmente.
Roberto rapidamente termina seu café e diz.
“Esse foi um descanso longo. Hora de voltar ao trabalho!”
Carlos e seu companheiro quase pulam de suas cadeiras em direção à saída.
Ambos deixam o dinheiro total da conta no balcão, sem perceber que o outro
também estava pagando, e partem para a rua.
Carlos rapidamente questiona.
“O que a bússola diz?”
Roberto observa o artefato de olhos arregalados. Em sua palma, as peças
continuavam a girar descontroladamente, e uma fraca luz emergia dos símbolos no
metal. Em tom analítico, ele responde.
“Os sinais estão muito confusos. Poderia ser um milhão de coisas diferentes…
parece até… a coisa sabe que está sendo caçada.”
Os dois seguiram descendo pela rua principal até chegarem a uma região plana
marcada por uma pequena praça redonda. O local era cercado pelas pitorescas
casas do município e continha uma boa quantidade de vegetação.
Conferindo o arredor por movimento e verificando que o centrinho já tinha uma boa quantidade de pessoas, Roberto se aproxima de seu colega e fala em tom baixo.
“Ok, tem um nível de inteligência. Deve ser tipo 2, certamente não é tipo 1. Crie uma ligação com um cristal, ele não vai ter como se esconder com isso.”
Carlos levanta o olhar.
“Onde? As pessoas vão estranhar.”
Roberto revira seus olhos.
“Vai atrás de uma árvore na praça e finge que está mijando. Eu ajudo na
encenação.”
A cara de Carlos se retorceu no que parecia uma máscara de desgosto.
“Ah, qual é… o povo já não gosta muito da gente… principalmente de mim.”
Carlos tomou um semblante mais sério. Ainda em tom baixo, ele diz.
“Eu sei… mas temos que achar essa coisa antes que ela se esconda. Quanto mais
rápido terminarmos, mais rápido podemos ir embora daqui.”
Com um suspiro profundo, Carlos se direciona para se esconder atrás da árvore
mais próxima. Roberto o acompanha, apoiando-se do outro lado da árvore e
começa a discutir uma imaginada noite de bebedeira com o colega. Algumas
senhoras pelas janelas teciam comentários que não podiam ser ouvidos.
Carlos retira uma caixa de bronze, pintada em certas partes de preto, do bolso da
calça. Com um clique, ele a abre, revelando cinco cristais enfileirados e segurados
por tiras de couro. Os minerais tinham um aspecto branco leitoso. Observando de
perto, era possível notar a complexa estrutura interna que parecia como um leite
derramado no ar, só que congelado no tempo. Obviamente, aquelas peças haviam
sido lapidadas à perfeição para ter seu formato atual: um prisma octogonal com um semi-cone de oito vértices numa das pontas. Talvez o mais próximo de um sólido perfeito que se poderia encontrar no mundo material.
Retirando um dos cristais de seu lugar e guardando o restante, Carlos tira um
canivete do outro bolso e, com a faca deste, corta a palma da mão esquerda. Com a direita, ele pega o mineral que havia deixado preso entre o braço e o corpo e o
conecta ao ferimento aberto. A forma geométrica parece absorver o sangue, como
um gás se expandindo da base até a ponta. Lentamente, o mineral toma um aspecto escarlate vivo. Ele retira sua mão direita para pegar uma outra bússola e se
move para encaixá-la no cristal. A estrutura permanecia totalmente ereta e, quando
o metal chegou perto dela, sua forma também se equilibra perfeitamente na ponta.
Parecendo uma macabra escultura, o construto fazia todo o antebraço de Carlos
enrijecer e suas veias saltarem, mas ele se manteve concentrado na tarefa,
observando atentamente enquanto o movimento e as luzes da bússola se
estabilizavam.
Minutos após terminar seu ritual, ele exclama com uma voz rouca.
“Sudoeste, 800 metros.”
Roberto abriu um sorriso de canto a canto, exibindo seus dentes amarelados. Já
começando a correr, ele diz.
“Vamos lá!”
Carlos levou poucos segundos para guardar seus instrumentos, apesar de alguns
não terem ficado onde deveriam. Mesmo com o cansaço extremo da noite anterior
ainda o assolando, ele sabia que Roberto precisava de seu apoio. Não era à toa que eles eram enviados em duplas, ou até mais, geralmente.
Eles caminhavam pelas apertadas vielas da cidade, se esquivando rapidamente dos
moradores que transitavam e trabalhavam pela rua. Carlos cambaleava pelo
caminho enquanto seguia seu companheiro e segurava seu braço dolorido. Roberto seguia com um novo ânimo. O instinto guiava seus passos como os de um lobo em caça. Depois de ter recebido a direção correta, após pouca caminhada, algo havia se ativado em seu cérebro. Agora seu destino estava definido, mesmo que ele mesmo não soubesse onde era.
Em torno de cinco minutos depois do início da disparada, os dois se encontravam
em uma clareira perto da cidade. Uma relva baixa e uma floresta de média densidade os cercavam. Os sentidos de Roberto estavam muito sobrecarregados, mas ele sabia que era o lugar certo. Enquanto ele retomava o ar, seu companheiro
começava a falar para o nada.
“É melhor você mesmo aparecer. Não vai querer que tenhamos que te achar.”
Subitamente, o ar esfria, os ventos ganham velocidade contra as costas dos dois, e
o dia parecia escurecer, por mais que a luz do sol se mantivesse a mesma.
No limiar da clareira, apoiando uma mão num cedro, uma figura escura, envolvida
em um longo véu, surge.
“Dor… Dor que não deve ser esquecida… Justiça!”
Uma voz ríspida, que parecia deixar o ar ainda mais frio, exprimia as palavras com
dificuldade.
Roberto só libera um leve sorriso, começa a mexer no interior de seu casaco e
provoca.
“É, é… Aposto que você quer um monte de coisas, sempre querem. Mas a única
coisa que você vai ter é isso.”
Com a mão direita, ele sacou do casaco dois canos escuros e serrados de 12 milímetros, fundidos e unidos a uma peça de madeira branca com um gatilho de
bronze. Ele endireitou seu braço, o estendendo perfeitamente reto, mirando na
direção da aparição e sussurra.
“Boom.”
O tiro em si não fez tanto barulho, mas criou um pequeno flash e espalhou centenas de pequenos projéteis pela região. Projetando-se supersonicamente por um cone à frente de Roberto, os diminutos cristais cortaram levemente as folhas e a grama por onde passaram, mas na figura deixaram enormes buracos. Um grito, muito mais agudo do que a voz anterior, é emitido.
Agora parados no chão, os projéteis tomavam uma forma fixa. Pequenos objetos quadrangulares, meio brancos, meio transparentes: cristais de sal grosso.
Roberto abre a parte traseira do cano, ejeta os cartuchos antigos e insere novos. Na parte frontal, ele enfia bolsas cheias de sal.
A densidade do ar começa a aumentar, as massas de ar se moviam em círculos pela clareira, formando um pequeno redemoinho. Carlos, sentindo o perigo iminente, entrou em estado de alerta. Ainda extremamente fatigado, ele conseguiu
força suficiente para puxar uma lâmina por trás das costas. Uma adaga de
aproximadamente 13 cm, com lâmina extremamente reluzente que poderia ser
usada como um espelho. O punhal, de prata pura e moldado numa espiral, brilhava
frigidamente na luz ártica que entrava pelas folhas.
Carlos ainda estava sem os movimentos de sua mão direita, mas mesmo que de
forma imperfeita ele segurava o punhal de lado com a esquerda. Agachado pela
grama ele procurava se proteger e dar espaço para novos tiros. Alguns instantes
passam. Ambos sentem a massa de ar gélida se movimentar entre suas costas.
Roberto se vira mais rápido, mas a coisa já estava sobre seu companheiro
estendendo suas garras. Um das unhas onduladas da aparição fica a menos de um
milímetro de Carlos.
Encarando a unha cortante diretamente sobre seu olho, Carlos segura o punhal
cravado no peito escurecido. Ele sentia como se só estivesse o segurando no ar,
sem nenhuma resistência, mas o efeito era claro. Com a figura paralisada, o
investigador rapidamente faz um movimento para acertar a cabeça dessa vez. Mas
a imagem do ser se desfaz como um líquido evaporado numa fumaça invisível.
Mesmo mantendo a faca na posição que a cabeça estava, Carlos sabe que dessa
vez não teve efeito.
Roberto mantinha seus olhos atentos a toda a área. Suas íris se moviam como
mosquitos ao redor da carniça. No fundo de seus ouvidos, ambos conseguem ouvir
algo como uma voz. O som aumentava continuamente. Roberto foi até seu parceiro,ainda agachado com sua adaga e agora cobrindo suas costas com uma árvore.
De repente, a voz se tornou um grito cortante que ensurdece a dupla. As folhas ao
redor se movendo descontroladamente. Roberto sabia que ele tinha menos do que
um segundo para descobrir a origem do grito, mas sua mente ainda era a de um
caçador. Mesmo que parecesse descontrolado, o movimento da vegetação traía o local da presa. Em cima! Ele espera somente o mais breve dos momentos e olha
para o alto.
Há menos de 2 metros da dupla as orbes azuis-escuras, de um rosto que a muito
havia se ido, os encaravam. Sua carne estava escura como a noite e era somente
uma camada fina sobre ossos protuberantes. A sua única outra cobertura era uma
camisola branca que aparentava ser feita de seda e se encontrava amarelada.
Roberto não precisava pensar, seu braço agia por si só. Sem perceber, ele já estava
certeiramente apontado e só esperava o rosto de seu alvo ficar bem próximo.
BOOM!
Dessa vez, o barulho foi maior e o flash cega a dupla. Quando eles se deram conta,
estavam na clareira com a macia luz dourada do fim da manhã os banhando. Ainda
com um sorriso no rosto, Roberto oferece uma mão ao seu colega e o pergunta.
“Bem mais fácil que os da noite, não?”
Carlos dá um sorriso cansado e estende a mão esquerda para o outro. Naquele
momento, Roberto percebeu que algo estava errado. Seus instintos ainda estavam
disparados. Então ele viu: uma mão, azul e translúcida, saindo do chão em direção
ao braço de seu parceiro. Era difícil observar o membro na luz natural, mas era
como uma mão mumificada, com longas unhas.
Muitas coisas passavam na cabeça de Roberto naquele curto instante, mas
nenhuma delas importava, pois os instintos, e ele sabia que viria a odiar aqueles
instintos um dia, já estavam agindo. Sua mão estava terminando de fazer um
movimento de arremesso, e a moeda dourada não estava mais em seu bolso.
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