Relatório Mensal do Tempo – Setembro/2026

O mês de setembro em São Paulo geralmente é marcado pela rápida transição para condições típicas de primavera, com o aumento da ocorrência de chuvas convectivas (“de verão”) e aumento das temperaturas. Eu costumo dizer que a transição no outono é bastante gradual, enquanto a primavera é como se fosse a puberdade das estações no ano no sudeste do Brasil. Dias frios e quentes são intercalados com muita frequência, e é a estação com maior amplitude e variabilidade térmica, podendo ter ondas de calor muitas vezes até mais quentes do que no verão.

Neste setembro de 2026, já muito influenciados pelo Super El Niño, observamos principalmente extremos de chuva, com 15 dos 30 dias do mês tendo alguma precipitação registrada. Além disso, em vários desses dias, altos volumes foram observados, principalmente na primeira quinzena do mês, o que resultou em um total de 294,1 mm, quase 10 vezes mais do que a chuva que caiu em agosto. A temperatura média observada em setembro na estação meteorológica do IFUSP, localizada no topo do edifício Pelletron, foi de 17,9°C, valor bastante abaixo do observado em agosto, o que não é comum. A Figura 1 mostra as temperaturas observadas em cada hora do mês no IFUSP, onde vemos um destaque importante para os períodos mais quentes, entre os dias 03 e 04/09, e depois outro mais intenso a partir do dia 26/09. A temperatura mais baixa registrada no mês foi de 9,9°C na madrugada do dia 07/09, e a mais alta ocorreu na tarde do dia 29/09, com a máxima de 31,9°C. É possível também que a temperatura máxima do dia 25/09 tenha sido ainda maior, porém uma queda de energia impediu o registro desses dados. Em 4 dias, a temperatura máxima ultrapassou os 30°C.

Olhando para outras variáveis, a velocidade média do vento foi de 5,8 km/h, praticamente igual à média de agosto. A rajada máxima observada foi de 66 km/h, na tarde do dia 04/09, com a chegada de uma forte frente fria, que trouxe bastante chuva nos dias seguintes. Por fim, a radiação média integrada no tempo, observada ao longo do mês de agosto, foi de 234,9 W/m², valor 1,5% abaixo do observado em agosto, devido à maior cobertura de nuvens durante o mês, e equivalente a apenas 54% do total incidente no topo da atmosfera.

Figura 1: Temperaturas médias horárias ao longo do mês de Setembro de 2026 na estação meteorológica do IFUSP, localizada no topo do Edifício Oscar Sala.

Observações de outras estações meteorológicas espalhadas pela cidade de São Paulo e dados de reanálise atmosférica mostram que o que vimos em setembro em São Paulo reflete a influência do El Niño sobre toda a América do Sul. Na Figura
2, vemos que a parte norte do continente teve temperaturas acima do normal para a época do ano, com anomalias de até 5°C na costa do Peru e do Equador. Partes da Amazônia brasileira também apresentaram temperaturas extremas, e chuvas bastante abaixo do normal, o que favorece a ocorrência de queimadas. Essa resposta da atmosfera é típica de eventos de El Niño intensos, como os que tivemos em 1997/98, 2015/16 e 2023/24, devido às alterações na circulação de Walker causadas pela temperatura superficial mais alta no Oceano Pacífico. No outro lado do espectro, esses eventos tipicamente causam um aumento da quantidade de chuva no Sul do Brasil, resultado que neste mês foi observado entre o RS e o RJ, com volumes muito acima do normal para setembro.

A expectativa para o restante da primavera não tem grandes alterações com relação a este padrão, com o ápice do El Niño se aproximando. As temperaturas devem ficar um pouco mais altas conforme a primavera avança, e aos poucos a chuva deve retornar para as regiões mais secas (Centro-Norte do país), com a proximidade do verão. É esperado que faça mais calor do que o normal no Norte e Centro-Oeste, e temperaturas mais próximas ao normal para a época são esperadas no Sudeste e no Sul.

Figura 2: Temperaturas médias horárias, precipitação total, e anomalias com relação à média 1991-2020 ao longo do mês de Setembro de 2026 na América do Sul.

Sobre o autor:
Rafael Valiati, aluno de doutorado no Laboratório de Física Atmosférica do IFUSP.

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