Folhetim SUPERNOVA #3 – 4ª semana de Maio de 2026

Marcha pelo fora Tarcísio! Em defesa da educação, do serviço público, contra as privatizações e a violência policial.

No dia 20 de maio, houve uma marcha que saiu do Largo da Batata, em Pinheiros, e caminhou até o Palácio dos Bandeirantes, que é o edifício-sede do Governo do Estado de São Paulo e residência oficial do governador. Este ato foi pensado para unir os estudantes em luta das universidades estaduais paulistas – visto que os estudantes da UNICAMP e a UNESP também já deflagraram greve – e também os trabalhadores do estado. É importante notar que, vários ônibus que estavam vindo do interior, trazendo estudantes para a marcha, foram parados pela polícia e revistados por horas, atrasando a chegada destes manifestantes.

Manifestante e PM. Foto de Link.

A concentração começou às 14h e a marcha às 16h30, com duas horas e meia de diversas falas dos estudantes universitários, secundaristas, trabalhadores sindicalizados, professores da rede pública e diversas figuras políticas como o deputado estadual Guilherme Cortez e a presidente estadual do partido Unidade Popular, Vivian Mendes. A marcha passou pela avenida Brigadeiro Faria Lima, acompanhada o tempo todo pela Polícia Militar. Ao longo do trajeto, foi estimado que houveram 30 mil pessoas presentes.

Marcha vista de cima. Foto de Link.

Ao chegarem no Palácio dos Bandeirantes, por volta das 19h, os manifestantes foram recebidos (de acordo com o DCE da USP) por três barreiras policiais e camburões do Choque e Cavalaria da Polícia Militar. Havia alguns rumores de que esta marcha se transformaria numa ocupação do Palácio dos Bandeirantes, mas nada do gênero ocorreu.

Após uma negociação dos manifestantes com a Polícia Militar, uma comissão de composta por estudantes dos DCE’s da USP, UNICAMP e UNESP, dois advogados e a deputada Mônica Seixas foi recebida pelo governo do estado de São Paulo. Desta reunião, foi relatado pelos estudantes a decepção ao perceber o quão ignorantes os representantes do governo de SP são sobre as questões das universidades estaduais.

O Email da Diretoria do IFUSP e as reuniões com a Reitoria e do Conselho Universitário

No dia 22 de maio (sexta-feira), a diretoria do IFUSP encaminha um e-mail para todos os discentes e docentes do instituto (trecho abaixo).

“a Diretoria CONVOCA TODOS OS ALUNOS E PROFESSORES PARA O RETORNO ÀS AULAS NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA, DIA 25/05. Todas as salas de aula e os auditórios do IFUSP estarão abertos e aguardando a retomada das aulas.”

É importante notar que, quando este email foi encaminhado, a greve dos estudantes da física ainda estava ocorrendo.

Além dessa convocação, a diretoria coloca no email que os calouros podem ter suas matrículas canceladas caso a greve continue por mais tempo, visto que, caso o calendário não se altere, todos os alunos da USP (e, então, do IFUSP) teriam presença insuficiente nas disciplinas e então reprovariam por falta.

Na greve de 2023, ameaças similares foram feitas por parte da Pró-Reitoria de Graduação (PRG) da época, cujo pró-reitor era o prof. Aluísio Segurado (atual reitor). Essa ameaças diziam que cursos em que a greve durou 6 semanas (ou mais) teriam percentual máximo de presença de até 68%, que é menor que o mínimo de 70%. Entretanto, essas ameaças não se concretizaram em 2023.

O CEFISMA (Centro Acadêmico do IFUSP) publicou uma nota em resposta ao email da diretoria, informando os alunos sobre a reunião de 21/05 do CoG (Conselho de Graduação). De acordo com essa nota, a PRG afirmou que havia um encaminhamento para um CoG extraordinário assim que a greve acabasse, em que seria abordada a questão do calendário acadêmico de 2026. A perspectiva que o CEFISMA apresenta na nota é otimista, dizendo ter grandes chances de alteração do calendário acadêmico visto que, nesta reunião do CoG, a pauta era discutir o calendário de 2027, que foi retirada para que se discutisse o calendário de 2026 primeiro, ao fim da greve. Dado que a pauta foi retirada com somente 1 voto contra e apenas duas falas não favoráveis a readequação de calendário, a perspectiva do CEFISMA foi positiva em relação ao reajuste na sessão extraordinária.

Na segunda-feira seguinte ao email da diretoria (25), o Instituto de Física tem uma manhã repleta de tensões. A Polícia Militar esteve presente logo cedo no instituto, supostamente por ter sido chamada por algum membro da comunidade IFUSPiana. Porém, a PM rapidamente saiu, após verificar que não estava ocorrendo nenhuma atividade violenta. A diretora do instituto ficou presente na entrada da Ala Principal (entrada em frente ao vão da biblioteca), a fim de garantir que as atividades acadêmicas retornassem conforme foi pedido no email. Alguns estudantes da física, presentes no piquete da entrada da Ala Principal naquela manhã, relatam que a diretora tentou remover os piquetes dos estudantes e fotografou os presentes, ameaçando abrir processos administrativos contra os grevistas. Os grevistas têm sucesso em impedir que diversas aulas ocorressem nesta segunda-feira.

A última assembleia dos estudantes do IFUSP foi marcada para o dia 27, quarta-feira, visto que os estudantes estavam esperando as reuniões do Comando de Greve da USP com o Reitor, que aconteceu no dia 25, e do Conselho Universitário (Co), que aconteceu no dia 26. A expectativa era que nestas reuniões teríamos as últimas negociações com a Reitoria e então a greve chegaria ao fim. Entretanto, a Reitoria insistiu na sua posição e não se mostrou aberta a negociações e os estudantes – representados tanto pelo Comando de Greve da USP quanto pelos representantes discentes do Co – se mostraram indignados perante a intransigência da Reitoria. A reunião do dia 25, de acordo com o Comando de Greve dos Estudantes, não foi produtiva e a Reitoria insistiu na sua posição anterior. Além disso, no dia 26, o Grupo de Moderação e Diálogo Institucional criado pela reitoria se autodissolveu devido a intransigência da Reitoria.

Notamos que a reunião do Co teve uma alteração de local feita poucas horas antes da reunião e que não foi comunicada aos RDs nem aos representantes dos funcionários, reforçando a posição da Reitoria de fechar o diálogo. Por outro lado, notamos também que os estudantes, após conseguirem chegar no novo local do Co, se inscreveram para falar, mas a plenária não deixou. Isso os levou a passarem a reunião falando por cima dos presentes numa tentativa de colocar as negociações da greve em pauta, o que acarretou no encerramento antecipado da reunião do Co. Desta forma, pouco foi acordado nessas reuniões.

Greve da ADUSP

Apesar das decepcionantes reuniões entre o Comando de Greve dos Estudantes e a Reitoria e do Co, ocorreu uma outra reunião importante no começo desta semana. No dia 25/05 (segunda), os docentes da USP aprovaram a adesão à greve mediante a uma assembleia da ADUSP (Associação de Docentes da USP), que ocorreu no Auditório Adma Jafet do IFUSP.

Entre os debates centrais estavam a unificação da greve, a necessidade de diálogo com os estudantes, as condições de trabalho, a valorização docente e o futuro das negociações salariais. Até agora, o reajuste reivindicado por docentes e funcionários segue indefinido. A proposta apresentada pela gestão foi vista como insuficiente e concentrada em critérios de “produtividade”, aprofundando críticas sobre precarização e desigualdade dentro da carreira universitária.

Assim, após a discussão veio a votação. Por ampla maioria – estimada entre 85% e 90% dos presentes, entre votos presenciais e simbólicos – os docentes aprovaram a paralisação. O resultado representou não apenas a adesão formal à greve, mas também uma resposta direta ao clima de pressão e assédio moral denunciado por estudantes ao longo dos últimos dias. A reunião da ADUSP começou às 17h e, perto das 19h, a greve dos docentes da USP começou oficialmente.

%a reunião da ADUSP começou 17h, ja havia passado mais de uma hora de discussão quando houve a votação (acho que foi mais perto das 19h, depois de um tempo que eu havia mandado mensagem p Triz falando que ia entregar o boletim

No comunicado da ADUSP, o motivo principal para a deflagração da greve docente é para a “reabertura de negociações efetivas do Cruesp (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) e Fórum das Seis (união das entidades sindicais e estudantis da USP, UNICAMP e UNESP) e da Reitoria da USP com os estudantes”. Além dessa pauta, também são apresentadas:

  1. Reajuste salarial IPCA (4,39%)+3%.
  2. Avanço na proposta dos estudantes do aumento do valor do PAPFE.
  3. Reorganização do semestre acadêmico.
  4. Não criminalização e não punição dos estudantes.
  5. Apuração das responsabilidades na ação da PM durante a desocupação da Reitoria.

Para a greve dos estudantes da física, em particular, a greve da ADUSP reforça as esperanças de mudança de calendário e auxilia na redução do pânico dos estudantes perante o fatídico email da diretoria do IFUSP. Entretanto, é importante notar que os docentes do IFUSP, em sua grande maioria, não apresentaram intenções de aderirem à greve da ADUSP.

A Assembleia do IFUSP

Na quarta-feira (27/05), ocorreu a assembleia dos estudantes do IFUSP para discutir a continuidade da greve. O método desta assembleia foi o mesmo das anteriores: divida em dois horários para contemplar os alunos do integral e do noturno e com o voto do tópico sensível sendo feito de maneira não-pública.

No horário diurno da assembleia, os principais pontos conversados foram sobre o método da greve. Diversos estudantes afirmaram que não acreditam que este método trará alguma nova vitória, visto que o Comando de Greve está exausto (e muito apreensivo devido a ameaças de processos administrativos), o piquete está esvaziado e a diretoria do IFUSP (e os docentes) se apresentam cada vez mais hostis. Dessa forma, na leitura destes alunos, a greve no IFUSP se tornou um fim em si mesma, algo que não é útil para o avanço das pautas de permanência.

Por outro lado, no horário noturno da assembleia, os estudantes discutem outros pontos. De acordo com os presentes, o debate precisa ser humanizado. Desta forma, ocorrem diversos relatos sobre como as políticas de permanência (como o PAPFE, o CRUSP e o Bandejão) são importantes para os alunos porém, por vezes, chegam a ser degradantes e precisam urgentemente de melhora. Os estudantes colocam, também, que não querem sair da greve antes de terem algum termo de não-retaliação vindo da diretoria do IFUSP – com esse ponto sendo crucial para que possam sair de greve.

No fim, é aprovada a continuação da greve, com piquete, por um total (juntando os votos nos dois horários) de 210 votos favoráveis, 130 contrários e 16 abstenções.

A Congregação do IFUSP e o (novo) Email da Diretoria do IFUSP

Na quinta-feira, 28/05, ocorreu a reunião ordinária da Congregação do IFUSP. Nesta reunião, os representantes discentes apresentaram uma carta para os presentes pedindo pela não-retaliação e pela extensão do calendário, se possível. Segue um trecho da carta:

“[…] A readequação do calendário acadêmico de 2026 está encaminhada como pauta de sessão extraordinária do Conselho de Graduação, a ser convocada após o fim da greve, com compromisso expresso do Pró-Reitor de Graduação, […] e parecer favorável […] pela extensão do calendário do 1º semestre de 2026.”

“Em vista dessa grande possibilidade de mudança, reiteramos a esta Congregação, em nome da representação discente, a solicitação de que não sejam aplicadas atividades avaliativas em formato de prova durante o período da greve geral dos estudantes nem no intervalo imediatamente seguinte ao seu encerramento, de forma que penalize quem exerceu o legítimo direito à greve. Porém, caso os docentes insistam na aplicação de provas neste período, solicitamos que a diretoria oriente esses docentes para que sejam aplicadas avaliações substitutivas extras para cada uma das avaliações dadas neste período. Sugerimos também que se observe, ainda, um intervalo razoável e não-avaliativo após o encerramento da greve, suficiente para a reposição efetiva de conteúdo antes da retomada das avaliações.”

“Sobre isso, o IFUSP já tem precedente próprio. Em 2023, a direção do Instituto comprometeu-se a sugerir e orientar as boas práticas de reposição de aulas e de avaliações, de modo a minimizar as perdas dos estudantes no período de greve. Pedimos que a Congregação reafirme esse compromisso e o aprofunde, agora na forma de uma posição formal deste colegiado, à altura do momento que o Instituto atravessa.”

“[…] solicitamos que a Congregação afirme que o exercício de manifestação dos discentes, deliberado em assembleia, não será objeto de retaliação acadêmica, administrativa ou judicial […].”


Os presentes na Congregação pareceram favoráveis aos pontos levantados pela carta. Assim, ocorre uma reunião entre a diretoria e os docentes (com 72 presentes), na tarde da quinta-feira. É informado aos discentes que, nesta reunião, os docentes aprovaram as reivindicações da carta (com 70 votos favoráveis, 1 contra e 1 abstenção) e que, até o final do dia, a diretoria apresentaria a posição à toda comunidade IFUSPiana.

Às 19h44 da quinta-feira, chega o email da diretoria: “Comunicado sobre reunião e compromissos do corpo docente do IFUSP”. As promessas feitas neste comunicado, em nome dos docentes do IFUSP, são de ouvir as diversas turmas das disciplinas do IFUSP nesta reorganização dos cursos e de considerar avaliações substitutivas abertas. Além disso, o comunicado avisa que conflitos ocorridos durante a greve serão tratados institucionalmente. Há, também, um apelo para que a paralisação dos estudantes se encerre assim que possível. Parte dos estudantes do IFUSP ficaram insatisfeitos com esse email por entenderem que a diretoria não apresentou uma posição firme de não-retaliação, algo que eles estavam esperando.

No dia seguinte, às 7h44, o CEFISMA recebe da diretoria o email que foi enviado aos docentes, um pouco mais favorável aos alunos. Ainda assim, notamos que tanto o email da diretoria do IFUSP, quanto da congregação do IME ou de outros institutos, colocam as palavras “orientações”, ou “podem fazer…”, pois, devido à liberdade de cátedra, ninguém pode interferir em como os docentes fazem suas avaliações ou o que dizem em sala de aula.

Trabalho Editorial Texto escrito por Triz Persoli, Camila Leite e Gabi Maia, fotos por Link e edição e formatação por Maria Dressano, Gabi Maia, Triz Persoli e Elisa Torrecilha. Damos destaque a subseção “Greve da ADUSP”, em que parte foi retirada de um texto extenso de Camila Leite, disponível em https://substack.com/@millaloliveira no post “Greve na USP: Docentes entraram!”. Para entrar em contato com a equipe Supernova, temos os endereços boletimsupernova@gmail.com e supernova@cefisma.org.br. Leia a versão online das diversas edições do Folhetim e do Boletim em https://cefisma.com.br/supernova/. Avisamos que a edição de maio já esta disponível!

Trabalho Editorial: Texto escrito por Triz Persoli, Camila Leite e Gabi Maia, fotos por Link e edição e formatação por Maria Dressano, Gabi Maia, Triz Persoli e Elisa Torrecilha. Damos destaque a subseção “Greve da ADUSP”, em que parte foi retirada de um texto extenso de Camila Leite, disponível em https://substack.com/@millaloliveira no post “Greve na USP: Docentes entraram!”. Para entrar em contato com a equipe Supernova, temos os endereços boletimsupernova@gmail.com e supernova@cefisma.org.br. Leia a versão online das diversas edições do Folhetim e do Boletim em https://cefisma.com.br/supernova/. Avisamos que a edição de maio já esta disponível!

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