Houve nesta quarta-feira (09) a Assembleia Geral para a aprovação da adesão do IFUSP à paralisação no dia 14 de abril. Dois eventos ocorreram, um no período da tarde e outro da noite, contando com aproximadamente 110 pessoas totais, que abrangeram estudantes do bacharelado diurno e noturno, licenciatura e física médica, além de alguns poucos estudantes da pós e um funcionário da biblioteca.
Após um período de discussões e falas de alguns dos presentes e da banca organizadora, tratando sobre pautas como a minuta apresentada na Comissão de Orçamento e Patrimônio (COP) da USP em abril, em que foi proposta a regulamentação de espaços estudantis. Na prática isso significa uma restrição do comércio e imposição de taxas de manutenção, idealmente para a proteção contra a precarização desses espaços. Algo que nos faz questionar: Se a universidade parece demonstrar tanto empenho na preservação, por que não vemos essa ânsia em sequer pintar a fachada do IF ou terminar a construção da biblioteca?
Essa proposta obviamente afeta diretamente os comércios de todos os centros acadêmicos que bancam os movimentos estudantis da USP e dos próprios empregados que possuem acordos reciprocamente proveitosos com os CAs. Como no caso da lanchonete da física, da gráfica e da livraria que se localizam no espaço Amélia Império e possuem seus aluguéis congelados pelos últimos 10 anos como forma de boa convivência entre os gerentes e os estudantes do instituto.
Além desta pauta foi discutido a proposta aprovada pelo Conselho Universitário no dia 31 de março, sendo esta a Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (Gace), que nada mais será que uma bonificação que alcançará 82% do corpo docente, resultado em um aumento de R$ 4,500 no salário mensal durante 24 meses e em um montante total de R$ 476,88 milhões. Enquanto isso, o histórico de reajuste salariais dos funcionários e técnico-administrativos foi na faixa de 5%, estando até mesmo durante os anos de 2017, 2020 e 2021, congelados. Temos então a realidade da camada trabalhadora da maior universidade da América Latina, que não manteve nem mesmo seu poder de compra com as oscilações da inflação.
Foi também falado da situação dos terceirizados que atuam na USP e não poderão aderir a paralisação:
“Queremos valorização dos funcionários terceirizados, que terão maior retaliação se se manifestarem, e ganham um salário muito pequeno. Eles também não têm direito ao BUSP, vejam eles em procissão na São Remo todo dia.“
disse o atual trabalhador da biblioteca temporária da física e um dos conselheiros do comitê de greve dos funcionários, comitê este que aprovou a greve a partir do dia 14 e que contará com uma passeata no mesmo dia, com a concentração se iniciando próximo ao bandejão Central.
Ao fim da Assembleia houve inicialmente a votação a respeito da paralisação, obtendo resultado positivo por contraste, ou seja, apenas uma quantidade ínfima de pessoas não concordou, na ordem de 1 ~ 2 votos. Após isso houve uma segunda votação a respeito da construção de piquetes, sendo este o ato de bloquear a entrada de salas e controlar o acesso ao prédio (geralmente feito com cadeiras empilhadas), um método utilizado desde as primeiras manifestações estudantis como forma de garantir que as atividades sejam encerradas como proposto pela paralisação e que os professores não sejam penalizados pela ausência de aulas em curso. Os piquetes foram aprovados, novamente por contraste, contando com um 3 votos contrários e 3 votos nulos. Nenhum dos presentes que discordaram quiseram apresentar defesa.
Sentindo essa tensão sobre a Universidade, em que uma possibilidade de greve se materializa, um esclarecimento importante para os estudantes que irão realizar o Exame Unificado das Pós-Graduações em Física (EUF): A prova irá ocorrer normalmente nesta quarta-feira (15), sendo aplicada provavelmente no auditório Abrahão de Moraes, que não será piquetado.
A equipe do Supernova conversou com alguns dos participantes da Assembleia antes e após o evento para que fosse conseguida uma perspectiva geral dos estudantes em diferentes estágios da graduação. Vê-se que o sentimento geral do ifuspiano é o de ânimo perante a visão da paralisação, sendo uma oportunidade de somar ao movimento dos funcionários e de exigir as demandas que impactam significativamente a vivência e permanência na universidade, como o reajuste do PAPFE, que tem o valor de R$ 885 mensal para estudantes que não dependem do CRUSP. Neste cenário, temos estudantes da física que presenciam a realidade precária da moradia estudantil e sofrerão agora com a greve:
“Devido à greve dos funcionários, os moradores do crusp correm o risco de ficar sem acesso a lavanderia e sem café da manhã, que é oferecido pelo bandejão central.“
Conversando com alunos que passaram pela greve de 23 e pelo histórico geral de greves na USP, observa-se como é escasso nos últimos anos o movimento de uma frente unificada de estudantes, funcionários e docentes e pela minha perspectiva como escritora deste texto, me parece que essa realidade de união é cada vez mais utópica. Pela visão dos poucos alunos de pós ouvidos a respeito da situação, não existe greve no setor de Pós-graduação, afinal a pausa das atividades pode facilmente ocasionar uma perda de bolsas e projetos, fatal ao currículo e possíveis futuras oportunidades. Além disso, devemos considerar a composição do meio acadêmico e como funciona a hierarquia de poder e influência dentro dele, de forma que tomar um posicionamento, principalmente como professor recém contratado ou aluno orientando de pós, pode gerar atrito com os outros docentes que fazem de suas opinões muito bem conhecidas. A consequência disso é que em períodos de manifestações a maioria dos professores se abstém e outros se sentem no dever de “furar” a greve, até mesmo entrando pela janela em uma sala de aula vazia.
As considerações finais são sobre a importância da participação dos estudantes na paralisação, tanto dando forças ao movimento dos funcionários quanto aos próprios eventos que tomarão curso no dia 14, entre eles um grupo de estudos para ingressantes deste ano e uma análise conjunta da minuta a respeito dos espaços estudantis. Dando atenção ao fato que o principal evento paralisado são as aulas! Alunos de pós ou alunos que queiram entrar para estudar/realizar atividades terão livre acesso.
Referências:
[1] https://saocarlos.usp.br/usp-concedera-gratificacao-a-professores-para-estimular-projetos-em-areas-estrategicas/
[2] https://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2016/06/seis-opinioes-sobre-o-uso-de-piquetes-na-greve/
[3] https://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2023/12/1988-a-2023-as-greves-historicas-da-usp/
Sobre o autor:
Maria Dressano é aluna do bacharelado e respeita acima de tudo o direito de resistir.