Diante dos ataques brutais e covardes que os estudantes da ocupação da reitoria sofreram na madrugada do dia das mães, me enxergo em uma posição vulnerável, não apenas como estudante, mas como ser humano.
Esse não é um texto jornalístico ou informativo, não irei tratar sobre fatos cronologicamente, ao invés disso falo pela primeira vez no Supernova em primeira pessoa, falo sobre a profunda dor que me toma e que com certeza é sentida pelo restante do corpo discente.
Estando presente na paralisação do dia 14 e brevemente no espaço ocupado da reitoria um dia antes da invasão, me é muito intrigante observar a forma que a juventude política da maior Universidade da América Latina escolhe se manifestar. Tudo escorre humanidade: pessoas cantando, dançando e balançando um céu de bandeiras, com algo flamejante que não sei muito bem como denominar, mas que afoga tudo, que me faz questionar curiosamente o que há nessas pessoas que escolheram protestar com arte e vida, com o mais essencial e de certa forma ingênuo, intocado ainda pela precarização da alma.
Não sei dizer pelo o que a maioria dos estudantes do Instituto de Física escolheram esse curso, a troco do que tomaram uma curva não muito usual e optada. Sei que escolhi por amor e não havia outro caminho. Mas acima disso, acima da escolha de carreira e das ameaças da diretoria do nosso próprio instituto sobre a continuação da greve, não existe vida, não existe arte, não existe dança ou cor, se não houver a desilusão do indivíduo como um objeto separado. Não há como enxergar-se independente, como algo que flutua e não toca nada, o mundo não funciona dessa maneira, estamos a todo tempo estendendo nossa existência pela existência do outro, por esse algo que une e interliga.
Estamos unidos aos estudantes feridos na madrugada do dia 10, e devemos continuar dizendo “madrugada” $\,$ ao citar os eventos, pois não foi pela manhã, não foi em um horário civilizado e justo, a atuação ocorreu com o solo objetivo de reprimir, ferir e acovardar a manifestação estudantil. Se isso não nos mobiliza, se isso não nos toca, então o que resta?
Não podemos produzir ciência em uma Universidade marcada por violência, não podemos prosseguir enquanto muitos ficam para trás.
Agora, estando no meu quinto semestre na física, tenho sérias dúvidas sobre o quanto a comunidade de professores do IFUSP de fato preza pela ciência. Principalmente quando não lidamos apenas com o cenário tumultuado e alarmante da greve, mas também com constantes intimidações dos docentes, com ameaças como a reprovação de toda uma turma por faltas ou que se não votassem contra a greve no instituto seriam penalizados.
Citando aqui o discurso da Diplomação da Resistência escrito por Triz Persoli em novembro de 2025, em homenagem aos assassinados e perseguidos pela ditadura, me pergunto o lendo novamente: Onde, de fato, vive a memória?
Imagino que não viva em meio a nossos professores, imagino que não viva na consciência de nossa diretora, imagino que não viva na dinâmica massacrante que rege o Instituto de Física.
Espero, então, mantê-la viva aqui.
Sobre o autor:
Maria Dressano é aluna do bacharelado e se lembrará.