Em reunião realizada entre estudantes e professores do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, no dia 24 de abril, para tratar da greve estudantil, um professor teria dito que “nem na ditadura” ele tinha sido “impedido de dar aula” – em referência ao piquete realizado pelos alunos. Diante de afirmação tão grave achei por bem escrever esse artigo para lembrar de alguns professores que foram impedidos de dar aulas durante o regime empresarial-militar que vigorou no nosso país entre 1964 e 1985 e, quem sabe, refrescar a memória do professor sobre este período sombrio da nossa história.
Mário Schenberg (1914 – 1990)
Considerado o maior físico brasileiro, Mário Schenberg tornou-se professor catedrático de Mecânica Racional e Celeste em 1944. Entre 1953 e 1961 foi diretor do Departamento de Física da USP. Em 1969 foi aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional no AI-5.5 (AI-5) e foi impedido de frequentar a universidade. Só retornou à USP em 1979, com a anistia.
Jayme Tiomno (1920 – 2011)
Expoente da física nuclear no Brasil, Tiomno foi fundador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), onde foi professor titular. A convite de Darcy Ribeiro, tornou-se professor da Universidade de Brasília (UnB), assumindo o cargo em 1965. Em agosto de 1968, tropas do Exército invadem o campus da UnB, arrombam salas de aula e espancam alunos e professores. A ação dos militares é condenada pela opinião pública e os professores ameaçam pedir renúncia coletiva, o que poderia inviabilizar o funcionamento da universidade. Assim como Schenberg, Jayme Tiomno foi aposentado compulsoriamente em 1969 pelo AI-5.
Elisa Frota Pessoa (1921 – 2018)
Segunda mulher a se graduar em física no Brasil, Elisa também foi fundadora do CBPF e professora da UnB. Em 1965, ela e mais 222 docentes pedem demissão coletiva em protesto contra a repressão política. Transferiu-se para a USP, mas foi aposentada compulsoriamente pelo AI-5, em 1969. Casada com Jayme Tiomno, foram trabalhar na Europa e nos EUA.
Ernst Wolfgang Hamburger (1933 – 2018) e Amélia Império Hamburger (1932 – 2011)
Ernst Hamburger nasceu em Berlim em 8 de junho de 1933. Filho de judeus, veio com os pais para o Brasil com três anos de idade, fugindo do nazismo. Conheceu Amélia ainda na graduação, no curso de Física da USP. Casaram-se em 1956 e tonaram-se professores da USP em 1962 e 1964, respectivamente. Com o golpe militar, resolvem emigrar para os EUA, onde já haviam morado entre 1957 e 1959. Decidem retornar ao Brasil em 1967. Em 1970 o casal é preso e torturado pelo apoio prestado a pessoas perseguidas pelo regime. O episódio é descrito no filme “O ano em que meus pais saíram de férias”, de Cao Hamburger, filho do casal.
Poderia citar ainda Moysés Nussenzweig (1933 – 2022), que embora não tenha sido diretamente perseguido, se impôs uma espécie de auto-exílio, permanecendo nos Estados Unidos de 1963 a 1975, tendo recusado convites para trabalhar no Brasil por considerar que a situação política brasileira não oferecia segurança. Além disso, em 1969, acolheu o estudante Luiz Davidovich na Universidade de Rochester, após este ter sido expulso e impedido de se matricular em qualquer universidade brasileira pelo Decreto 477. O Decreto punia a participação em greves, paralisações, organização de eventos não autorizados ou atos “contrários à moral e à ordem pública”.
Pelo que se vê, não faltam exemplos de professores perseguidos e impedidos de exercer sua profissão por governos ditatoriais que suprimem as liberdades individuais, torturam e matam dissidentes. O que tem faltado mesmo são professores da mesma estatura – ética e intelectual – dos que eu citei acima. Estes são raríssimos.
Sobre o autor:
Emerson Martins é funcionário do Instituto de Física e diretor de base do SINTUSP