Apertem os cintos, o reitor sumiu!

Existe uma cena clássica de comédia — ou tragédia, dependendo do seu nível de paciência — em que alguém com autoridade decreta que um problema foi resolvido, vira as costas e sai pela porta dos fundos antes que alguém possa discordar. No cinema, a gente ri. Na vida real, a gente está em greve.

É mais ou menos isso que acontece na USP desde as últimas três a quatro semanas.

No dia 4, a reitoria do professor Aluísio Segurado publicou um comunicado informando que as negociações com os estudantes em greve estavam encerradas. Não foi numa assembleia. Não foi numa reunião com os representantes discentes. Foi pela imprensa. O SINTUSP, sindicato dos trabalhadores da universidade, chamou a jogada pelo nome que ela merece: desrespeitosa. Afinal, havia uma nova rodada de negociação marcada para o dia 7. Os estudantes estavam o esperando para negociar os pontos de melhorias. A reitoria simplesmente não apareceu — e mandou um comunicado no Instagram, sem dar espaço a diálogos.

Mas por que a USP parou?

Para entender a greve, é preciso voltar ao dia 31 de março. O Conselho Universitário aprovou a GACE — Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas. Um bônus de R$ 4.500 mensais para professores que assumirem “projetos estratégicos”, como ministrar aulas em inglês. Custo anual: R$ 238 milhões. Enquanto isso, um estudante em situação de vulnerabilidade socioeconômica recebe R$ 885 pelo PAPFE — o programa de assistência estudantil. Os alunos pedem que esse valor suba para R$ 1.804, equivalente ao salário mínimo paulista. A reitoria ofereceu R$ 912.

Para efeitos informativos, uma bolsa do PAPFE mal vale um valor de uma mensalidade de estagio para um aluno que, por exemplo, chega de outro estado e precisa se estabilizar na Cidade Universitária para seu começo de jornada acadêmica.

Aí, você faça as contas em casa. Depois, tente explicar para um estudante que trabalha de dia e estuda à noite por que a universidade tem R$ 238 milhões para um bônus docente, mas não consegue chegar nem perto do mínimo para manter seus alunos alimentados e com teto.

Mais de 130 cursos estão, neste momento, paralisados. Foram quase 20 horas de negociação em três reuniões. E então a reitoria decidiu, sozinha, que estava satisfeita com o próprio resultado — e comunicou o encerramento como quem manda uma nota de cancelamento de serviço.

O golpe de misericórdia: as três pararam mesmo!

O movimento não ficou quieto dentro do Butantã. Na segunda-feira (4/5), estudantes das três universidades estaduais paulistas — USP, UNESP e UNICAMP — protestaram em frente ao prédio onde se reunia o CRUESP, o Conselho de Reitores, na República. A UNESP paralisou na terça e na quarta. O DCE da UNESP foi direto: a instituição enfrenta uma crise na “precarização do ensino, pesquisa, extensão e permanência estudantil”. Na UNICAMP, a assembleia aconteceu hoje, 7 de maio, e o resultado foi direto: greve deflagrada para segunda-feira, com adesão dos docentes (coisa que ainda não aconteceu na USP: os docentes aderirem em conjunto). As três maiores universidades estaduais paulistas estarão, pela primeira vez neste ciclo, paralisadas ao mesmo tempo.

Enquanto isso, o CRUESP encerrou sua última reunião com o Fórum das Seis — articulação que reúne representantes de docentes, funcionários e alunos das três universidades e do Centro Paula Souza — sem acordo salarial. O reajuste oferecido: 3,6%, atrelado à inflação pelo IPC-Fipe. A reivindicação do Fórum: 15,97%, para recompor o poder de compra perdido desde 2012.

E o governador Tarcísio de Freitas, questionado, disse que a greve tem “cunho político” e defendeu a autonomia das universidades na gestão dos próprios recursos. Tradução livre: “não é problema meu”.

Os próximos passos da greve unificada

Hoje, 7 de maio, o SINTUSP realizou assembleia e votou pela continuidade da greve dos trabalhadores da USP por tempo indeterminado. Na UNICAMP, outra assembleia aprovou greve a partir de segunda-feira — com os docentes incluídos na paralisação. A próxima reunião de negociação com o CRUESP está marcada para o dia 11. Há um ato convocado para o mesmo dia, às 13h, na reitoria da UNESP.

A reitoria da USP decretou que a conversa acabou. Os trabalhadores responderam na mesma tarde: ela não acabou. Os docentes da UNICAMP responderam hoje: ela está só começando.

Quando uma instituição anuncia que a negociação encerrou antes que o outro lado concorde, ela não está administrando um conflito — ela está ignorando toda uma comunidade e com propósito perverso. E comunidades ignoradas não desaparecem num passe de mágica. Elas ocupam corredores, trancam portões, fazem barulho até que alguém na sala da reitoria precise, de fato, decolar esse avião.

O piloto pode ter sumido. A aeronave ainda está no ar e a tripulação sente a turbulência, sem mais espaço para a paciência.

Sobre o autor:
Camila Leite é aluna da licenciatura em física.

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