Aprecie algumas obras de artes produzidas pelos alunos do Instituto!
Pode a beleza ser pequena?
Pedro
Pequena não como um rato, que rasteja e esquiva dos olhares, porque acredito que a beleza por vezes se faz evidente de maneira grandiosa. Em outros momentos, todavia, realmente parece fugir do alcance, fazer o esforço para manter segredo. Pode a beleza ser tal qual um livro infantil? Não complexa, difícil, multifacetada e incompreensível, mas algo óbvio como o nascer do sol. Pode a beleza ser intuitiva?
Pergunto-me: por que parece a beleza tão fácil quando presente mas sinuosa quando ausente? Como posso entender e dançar com uma sensação hoje que amanhã sumirá como a mulher linda no trem, que nunca mais vou ver. Talvez a resposta seja que a beleza não existe. Não há conceito, espaço, palavra ou estado onde possa afirmar: aqui está contida a beleza. Basta agora habitar esse gramado florido e belo, banhado pelo sol ameno, que estarei plenamente satisfeito. Pode ser que simplesmente o arranjo das coisas componha esse algo belo sem nunca fazê-lo existir. Sem padrão, lógica ou consistência, o
que afoga hoje pode afagar amanhã e não há nada que se possa fazer para desembaraçar esses fios perdidos. Procurar ou tentar causar a beleza gera resultados imprevisíveis, o amor de hoje pode ser odioso amanhã. O beijo azedar, o carinho amargar. Desnecessário qualquer aviso, toque ou notificação, apenas somos levados pelas correntes que nos engolem e cospem de volta mudados.
A beleza pode existir de maneira prolongada em um relacionamento, mas tão rápido quanto surgiu, desaparecer e deixar sequer um rastro que indique qual razão da fuga. Podemos, e realmente tentamos, enxergar essa flutuação quase divina, mas no melhor podemos estimar ou chutar causas que nos satisfaçam. Caso me propusesse a reunir os elementos que fizeram meu primeiro amor florescer, encontraria dificuldade extrema em combiná-los de maneira a trazê-lo de volta. Se é impossível refazer beleza, pelo menos não de maneira genuína, então devo entender que há alguma espécie de irreversibilidade nesta criação espontânea.
Vejo a beleza tal qual o jazz. Toca-se uma versão improvisada de uma melodia e, por maior que seja a vontade da platéia, aquela exata versão deixou de existir de maneira categórica logo após seu último acorde. Isso porque aquela música, preparada ao vivo e de maneira espontânea, é praticamente irreprodutível. Posso até ouvir uma gravação, mas não se trata
mais da atmosfera do jazz ao vivo tal qual uma foto com uma ex-amante não revive o relacionamento. É necessário ser presente para apreciar o jazz, deixar que lhe carregue pelos ritmos e solos. Feito da maneira correta, não se percebe nem se questiona a efemeridade do momento, resta apenas um eterno instante muito mais significativo.
Pergunto se a beleza pode ser pequena pois caso fosse grande seria possível estudá-la. Não se perde algo grande de vista, está sempre lá, disponível para fracionamento e investigação. A beleza, todavia, some e faz parecer que nunca existiu. Sua ausência é marcada pelo quase esquecimento de como se deu antes, parece impossível de ter um dia sequer existido. Isso me faz crer que ela é, no fundo, algo bem pequeno. Tão simples que supera nossa capacidade de classificação e entendimento, ela é irreverente à aplicação de uma lógica, bem como deixa de ser tão rápido quanto. Parece-me impraticável prever a beleza, construí-la de maneira sistemática e planejada. Posso ter surtos artísticos, ser encantado por uma vista ou imagem que me leve a produzir ou sentir beleza, mas apenas dessa maneira estocástica.
Quero muito que seja assim: que a beleza seja uma parcela fundamental e incompreensível. Isso confere a mim a capacidade, ou ao menos a possibilidade, de me desapegar dessa missão de buscar ou fazer coisas belas. Posso só aceitar que bem como a gravidade misteriosamente rege a organização dos cosmos e a quântica a dos átomos, a beleza simplesmente existe. Não há condição que possa remover essa característica básica do universo, por mais que eu tente. Quero poder viver esses momentos breves e saber aproveitá-los sem culpa de que amanhã, não os acharei mais. Saber amar e ser amado sabendo da existência do ponto final mas também na certeza do reencontro com essa
propriedade ilusória.
Nascimento
André
Gerou-se aqui
De duas sementes inválidas e incompatíveis
Sem um ovo.
Não poderia nunca ser
Mas ainda assim… algo surgiu?
Surgiu, sim
De uma virou duas, de duas um milhão
Se esticou, afrouxou e apertou
Pude ver de perto
Sentia sede de vida. Quem o via, sabia
Queria ser, deixar de ser pensamento e ser material
Perder a efemeridade e se tornar estável, concreto
Firmado em quatro paus com duas copas em cima
Mas o machado veio logo, em tríplice
Um quarto copo, recusado. Desprezado.
Feita a desfeita, só sobrou a dor
Remexeu-se, silvou e contorceu em agonia
A rainha surgiu com um corte limpo no horizonte
Mas seu desejo nunca diminuiu
Foi o suficiente pra nascer
E nasceu assim, moribundo
Trôpego e cheio de desalento
No sobrosso de sua novidez, atirou-se de braços (vários) abertos
Bradou pela vida antes de se espatifar em milhares de si
Ruiu como o fantasma da torre ri, e riu.
Discurso do sol
noturno ou, Josué 10:13-14
Luiz Almeida
“Tudo! Tudo é pequeno!
A morte assombra como um carrasco.
Este peso assobia pelos quatro cantos:
Tudo é pequeno e reduz-se ainda mais.”
A força, a grandeza, os belos risos-
Tudo é pequeno e reduz-se em mim.
Esta angústia se estende e revolve
Na divisão e contradição que me assombra
Entre a força que quer a luta em face
Da pequenez mesmo que a aglutina,
E esta pequenez obscena pela qual
Força nenhuma se proporia a lutar.
Dentre todos os fracassos acumuláveis
A falha em falhar é a mais amarga.
Que se tenha sucesso em toda empreita
Para que o sucesso lhe pese qual espada,
E a poesia mesmo não lhe sirva senão
Como trem que desliza sem carga alguma.
Há uma sabedoria, um fato consumado,
Que se quer esquecer, ocultar, destruir,
Do qual, contudo, não há um que possa fugir.
A agarro e abraço com força, e mordo seus cabelos;
Seu vestido negro me cobre e venda os olhos:
De um único instante se furtou de mim
Esta mulher sorrateira, vil verdade.
Essa sabedoria, traidora de minha potência
Ela mesma que me sabe ainda despreparado
Para assumir tamanho peso de suas palavras.
A força luta pela superação do que é baixo;
A sabedoria, no entanto, despreza a baixeza,
E não faz dela seu igual numa dança de troca.
Sua dança é a dança da volúpia.
Seu prazer está em enganar;
Em fazer-se quista e tomar seu lugar
E logo, então, ausentar-se por completo
Pelo que não há, para ela, lugar algum.
De um fôlego repentino me insuflei,
E num novo domingo devo trabalhar:
Para que se possam amanhecer os sábados.
Soneto aos que partiram
N.
Os que ficam sabem dos que se foram,
retirantes feridos pelo mundo.
Dispersos na vida em sono profundo,
a morte os abraça e eles afloram.
Os que ficam meditam a existência,
a extinção dos que quiseram partir,
a mágoa dos que não queriam ir,
a certa e desvanecente cadência.
A efemeridade das coisas vivas,
segue perpetuamente mutável,
e chega de chofre em horas furtivas.
A angústia perene vira implacável,
indagando sobre as almas cativas,
sem conhecer seu fado lastimável.
6 de setembro de 2026
Dedico este soneto a uma moça que gostava muito de Beatles e à minha querida avó.

Triz Persoli

Maria Dressano