Muitos podem pensar que a construção de vieses e visão de mundo é algo que passa intrinsecamente pelo âmbito racional dos indivíduos, no entanto, a construção de parâmetros que definem o comportamento, time de futebol, religião e demais itens do checklist de todos nós enquanto humanos, vivendo num planetinha cheio de opções para abraçar e se esquecer um pouquinho do vazio de existir, *acho que tô lendo muito Nietzsche… porém brincadeiras à parte somos um caldeirão de possibilidades que nada tem de acidente e são compostas por várias formas de se fazerem valer, ao nos dar algum sentido, algum norte, sendo nossas bússolas em meio ao caos.
Observar seu vizinho ou seu amigo do outro lado do mundo pode ser uma experiência interessante, pois é possível parecer mais com seu amigo inglês do intercâmbio, do que com alguém que divide tantas semelhanças em termos de origem, acessos e contextos diversos relativos a habitarem a mesma geografia, falarem o mesmo idioma e talvez por coincidência torcerem ambos pro Corinthians, porém a visão de mundo não passa por um critério apenas geográfico.
Então a essa altura para não ser prolixo vamos direto ao ponto, as paixões que se fazem tangíveis na vida adulta são reflexos de uma infância, seja ela bem ou mal vivida, pois as marcas do tempo são implacáveis, e não é como se apenas a infância deixasse suas cicatrizes, mas é nesse reduto de formação que a gênese de quem somos é moldada, de forma a nos tornarmos um aglomerado disso com pitadas de vida adulta e suas máscaras.
Você em meio ao atual contexto político, então olha para sua tia, primo ou talvez Pai e Mãe e não reconhece nesses sujeitos uma legitimidade que vê em si, a propósito você está do lado certo, claro que está, em nosso universo particular somos os tiranos e algozes tudo e nada porém o que dificilmente admitimos é que nossa vista é miope e as lentes que usamos sempre
têm um pouco de nossos preconceitos pouco fundamentados.
Meu convite a todos é dialético é capacidade de diálogo, de envolver-se na visão do outro de entender a mais vil psicopatia e suas causas e até mesmo que trata-se apenas de um caso de psicopatia, pois gritar aos berros teorias políticas contra uma massa que reverba um ódio mal canalizado, é jogar lenha na fogueira de um mundo já em colapso, não precisamos mesmo de pais homofóbicos, primos racistas e tias fundamentalistas que te julgam por cada ação e até pensamento, mas a provocação real é de que essa guerra cultural não era vencida com um sentimento de superioridade moral e intelectual, pois as bases da sociedade não operam seus jogos estocásticos por meios lógicos, não jogamos xadrez ao encarar o drama humano, para uma guerra dos afetos eu advogo em nome da utopia.
Temos muitas diferenças do lado de lá, ser de esquerda para alguns de nossos mais íntimos e próximos por anos, é sinônimo de indecência, burrice e ausência de sobriedade. Porém, mesmo em meio a todo esse viés carregado de imbecilidades diversas, sua tia usa o SUS, seu primo passou em Direito pelo Prouni e seu Pai adora se gabar de que tá cheio da grana quando cai o décimo terceiro e o churrasco no final de ano é um pouco mais farto. Portanto, somos ancorados por políticas que nascem da luta, da visão e da ação que eles tanto antagonizam, porque lhes foi vendida uma distopia que nasce da paranoia e do preconceito e para suplantar esse lugar medonho da alma de tantos dos nossos, somente a utopia o desejo por mudança, o desejo por acessos e a construção de algo para além do que se põe como verdade que será possível mudar, mesmo que poucos para esse lugar de luta, subversão e transformação social.
Virar voto, nesse momento, passa mais por ser capaz de ver o mundo como ele é e não como gostaríamos que fosse, e entender que as motivações e paixões do lado de lá são diversas e cheias de motivação do mesmo modo que nós do lado de cá, e portanto não seja pouco inteligente, não haja por impulso e não reforce o que já pensam, proponha uma mudança
tangível, visceral e cheia de vida, não um aceite do que está, ser conservador só irá sair de moda, quando a esquerda em sua maioria se lembrar dos sonhos lá da infância que tanto nos definem e começar a pautar uma utopia revolucionária e nesse dia, quero ser o primeiro da fila a abraçar os nossos de volta a seu lugar histórico de classe trabalhadora não mais servil ou ideologicamente perdida, mas politizada, curada de seus medos e traumas e de mãos dadas para que a luta deixe de ser um sonho distante e se torne nossa salvação material que só poderia vir de um sonho infantil, mas que um dia irá se realizar.
Sobre o autor:
Douglas J. Vieira é aluno ingressante do IFUSP.