O primeiro turno das eleições foi no dia 04 de outubro, como de costume, em homenagem à data do nascimento da Constituição Federal de 88, no dia 05 de outubro. Além de ter eleito o Executivo, elegeu também o Legislativo.
No Senado – lembrando que os eleitos de agora contarão com mandatos de 8 anos -, a direita terá mais de 60% das cadeiras, enquanto o centro e a esquerda com menos de 20% cada. Já na Câmara dos Deputados, a direita terá 55% das cadeiras, o centro 24% e a esquerda quase 21%. Em São Paulo, a ALESP terá mais de 70% dos deputados estaduais de direita. Isso quer dizer que, basicamente, quando for necessária apenas a maioria, a direita sequer terá que negociar com o centro (que, sabemos, também já é inclinado à direita). Quanto ao Executivo, em São Paulo, elegeu-se Tarcísio logo no primeiro turno, com mais de 60% dos votos e, dessa vez, diferentemente de 2022, ele também ganhou na capital. Sobre a presidência, Flávio Bolsonaro ficou com 47,03% dos votos e Lula com 45,16%, diferença acirradíssima.
Eu esperava o pior, e foi pior do que eu esperava.
O que o CEFISMA apoia, para o segundo turno, é o voto crítico em Lula. Não porque apoiemos o Lula, mas porque a entrada de Bolsonaro na presidência nos arrastará para tempos muito, muito sombrios novamente, dado que o candidato, no dia seguinte a um primeiro turno que o garantiu apoio em números massivos no Legislativo, afirmou querer mudar a Constituição. Não gosto de pessoas alarmistas, mas faço questão de lembrar que não existe cláusula pétrea em golpes de Estado.
Dito isso, não apoiamos a linha seguida por Lula, principalmente em seu terceiro mandato, onde continuou insistindo fortemente na conciliação de classes. Claro, eu pessoalmente jogaria uma pedra ou um sapato à la Bush em Flávio Bolsonaro se tivesse a mais remota oportunidade. Mas sinto que as pessoas que defendem a Frente Ampla com unhas e dentes se esqueceram de coisas – não detalhes, fatos cruciais – que julgo importante que nós lembremos.
A Frente Ampla, centralizada na figura de Lula, é justamente o que gera essa impressão de polarização tão intensa. A extrema direita e os conservadores, ao contrário do que costumamos pensar, são tão fragmentados quanto nós. Talvez até mais. É importante começar ressaltando, então, que Lula não é de esquerda (pelo menos não mais), e sinto que é imprescindível começar com esse fato. A morte do petismo no Brasil não significa, de maneira alguma, a morte da esperança da esquerda brasileira, muito pelo contrário: deixa um “vácuo”, e assim significa a abertura de novas possibilidades do enfrentamento do capitalismo pela classe trabalhadora, se, e somente se, a revolta e o descontentamento sentidos forem bem trabalhados por parte dos revolucionários, por meio da elevação da consciência do proletariado, ao ponto em que as contradições do capitalismo fiquem evidentes, assim como a necessidade de uma revolução.
Pelo ponto de vista do materialismo histórico-dialético (o método de Marx e Engels, oposto ao idealismo de Hegel), os aspectos materiais e, assim, econômicos, são os que movimentam a ideologia, e não o contrário. Sob essa ótica, o espectro político tem mais a ver com a relação com o capitalismo (sistema vigente) do que qualquer outra coisa, e o posicionamento dentro da luta de classes. A direita, seja ela o setor reacionário (como o bolsonarismo), seja o setor liberal (como Alckmin), cada um à sua maneira, zela pela manutenção ou aprofundamento do sistema capitalista. Já a esquerda, pelo contrário. Aqui é importante também fazer uma distinção: os reformistas acreditam, como o nome denuncia, que é possível reformar o capitalismo e, gradualmente, melhorá-lo ou encerrá-lo, exigindo então uma etapa de conciliação de classes. Já os revolucionários, acreditam que isso não é possível e que o fim do sistema capitalista se dará apenas com uma revolução da classe trabalhadora. No último, estão os comunistas, que, esperamos que nesse ponto não seja surpresa pra ninguém, é onde a linha política do CEFISMA Popular está posicionada.
Desta maneira, Lula não é de esquerda, e seu último mandato selou o caixão dessa ilusão propagada. Ele representa, ainda, uma aliança com a burguesia. Isso porque, mesmo com os grandes projetos sociais do governo Lula 1, medidas como o
Arcabouço Fiscal e a tentativa de privatização das hidrovias do Rio Tapajós e Tocantins no último mandato deixam claro que a política principal é a de conciliação de classes. Entretanto, considero que a culpa da morte do petismo é justamente dessa tentativa de conciliação de classes com interesses não apenas diferentes, mas completamente antagônicos: ao tentar agradar gregos e troianos, proletariado e burguesia, Lula desagradou a todos. Digo mais ainda: esse desagrado foi um prato cheio para que a extrema direita se infiltrasse no dia-a-dia da classe trabalhadora e pudesse apontar para os problemas observados, desse soluções simples para problemas estruturais, e então se perguntasse algo que, muitas vezes, estava correto: e o PT, em 18 anos, o que fez sobre isso? Aliado ao contexto da educação precária (principalmente em disciplinas que incentivem o pensamento social crítico), temos ainda a falta de tempo por causa de jornadas de trabalho exaustivas, gerando uma falta de tempo para letramento político, evidenciado com o fato de que muitas pessoas sequer sabem a importância do Legislativo, ou o que é esquerda e direita além do sensacionalismo. Esse problema de falta de tempo, além de muito presente por causa da existência da escala 6×1, é aprofundado com o distanciamento da sensação de pertencimento da classe a algum grupo através de medidas como a pejotização e a plataformização.
Esse contexto, de medidas de conciliação de classe constantes, com a crise do capitalismo gerando essa articulação dos reacionários (em igrejas evangélicas, por exemplo, que muitas vezes são a única rede de apoio e pertencimento da parcela
desesperançosa e decepcionada do proletariado), da falta de letramento e debate político, e da disputa de consciência da juventude desiludida com um futuro, resultou no que vimos no primeiro turno. Temos ainda a influência das Big Techs americanas, como se já não estivéssemos muito bem sozinhos, obrigada.
Novamente, que fique claro que em nenhuma instância apoiamos Bolsonaro. O que é necessário entender, por exemplo, é que é revoltante, sim, que o Lula 3 não tenha conseguido reduzir tanto quanto deveria o preço da carne, mas que colocar as medidas propostas por Flávio Bolsonaro em vigência significará rever a triste cena da filas pela doação de ossos vista durante a pandemia. É revoltante, sim, que após 4 anos o fim da escala 6×1 ainda esteja empacado, mas qualquer pessoa que tenha o mínimo de contato com a realidade sabe que a proposta de Flávio Bolsonaro de que os empregados negociem com os patrões, no fundo, significará uma escala 7 x 0. É revoltante sim, que as bolsas federais de iniciação científica ainda sejam menos de metade de um salário mínimo, mas a proposta de Flávio Bolsonaro de acabar com a CNPq e subordiná-las ao MCTI significará o fim de muitas das importantíssimas pesquisas realizadas aqui no Instituto de Física, por exemplo.
Ignorar esse começo importante, de que a ineficiência em muitos aspectos do PT (e da conciliação de classes como um todo) em resolver os problemas da classe trabalhadora é revoltante, e fingir que está tudo bem porque precisamos reeleger Lula, é entregar de bandeja o Palácio do Planalto de volta à família Bolsonaro.
Assim como odeio alarmismos e comecei o texto com um, me permito ser hipócrita e dizer que odeio também fazer uso de lugar-comum. Para um trabalhador revoltado, que deixa de pagar a conta de luz para poder fazer mercado, que trabalhou
exaustivamente para comprar um celular que é roubado enquanto ele volta do trabalho, qual alternativa parece mais atrativa, qual espelha mais a raiva que ele tem todo o direito de sentir? Reduzir a maioridade penal para punir quem o roubou (o que sabemos que não aconteceria, a diferença é que quem o assaltou seria cada vez mais jovem, além do aumento da população carcerária e opressão de jovens periféricos)? Ou ter certo estoicismo de pensar que, na verdade, é errado que ele trabalhe tanto, tanto, tanto por um celular, que precisamos para tudo, inclusive para conseguir um emprego; que os assaltos e furtos a celulares, principalmente feitos por menores, são sintoma de um sistema feito para que as pessoas precisem que esta seja a sua desesperada última alternativa, estando em situação de vulnerabilidade?
O que pareceria mais atrativo para você, se colocando nesse lugar: dizer que o crime organizado acontece por causa das
drogas e que dele parte a culpa de toda a violência, e que temos que fazer uma extremíssima repressão na forma da guerra às drogas (uma solução mais rápida, porém que sequer resolve o problema por cima, quem dirá o estrutural); ou que a presença tão intensa do crime organizado tem muito mais a ver com um vácuo deixado pelo Estado onde ele deveria cumprir seu papel e garantir condições mínimas de sobrevivência, mas que as crianças precisam escolher entre roubar e passar fome?
Chega de lugar-comum, vamos voltar à materialidade.
O que a direita propõe, com soluções simples, porém ineficientes, para os problemas complexos, funciona justamente porque estamos cansados. E sem esperança. E com raiva. E tristes. E sem tempo. E sem dinheiro. Estamos realmente sem dinheiro.
E, como dito anteriormente nesse texto, o dinheiro move o mundo.
Temos que sair desse lugar superior auto-intitulado que o academicismo têm nos colocado e conversar de verdade com as pessoas. Como eu disse, temos raiva. Raiva pede medidas curtas e drásticas, raiva não dá espaço para reflexão mais ampla, raiva aponta o dedo para culpados. Cabe a nós transformar a raiva em revolta. Porque revolta dura. E essa revolta tem nome: revolta de classe. E se você, nessa altura, já concordou que o problema do governo Lula foi a conciliação de classes, o oposto é muito claro: luta de classes, o motor da história.
Faço questão de lembrar aqui, também, que a principal justificativa da Frente Ampla é que só Lula tem a popularidade necessária para derrotar grandes figuras em ascensão da extrema direita, como a família Bolsonaro, e talvez eles tenham até razão. Mas, independente de Lula ganhar ou perder, ficaria ainda o questionamento, sob essa ótica: o que faremos em 2030, se essa centralização de toda a ala não reacionária em Lula não der certo? Choramos?
Vivemos tempos difíceis, mas, honestamente, são poucos os tempos que não são. É importante saber que o derrotismo e o pessimismo nunca levaram ninguém a lugar algum, eles paralisam, e enquanto nós nos vemos paralisados, o mundo continua a pegar fogo. Também não é hora para desespero ou raiva, porque isto nos torna impulsivos e irracionais. Esse, dentre todos os momentos, deve ser a epítome da nossa revolta enquanto classe trabalhadora. Aproveitemos que o Brasil discute política, e aproveitemos para construir mobilização, para pegar esses sentimentos – derrota, medo, raiva, desespero – e transformemos em algo que realmente ativamente muda o mundo, que é a revolta organizada e contra as pessoas certas, contra quem realmente se beneficia com o sistema capitalista: a burguesia.
Mais do que nunca, mostra-se necessária a organização dos trabalhadores, em partidos e, principalmente, em diversas entidades de base, como sindicatos e o próprio CEFISMA.
Há esperança, e ela não é o Lula, é a revolução. Ajamos como tal.
Sobre o autor:
Cefisma Popular é a chapa vigente do CEFISMA 2026-2027.