A Agostina não vai acontecer este ano com a participação do CEFISMA. Começamos com essa afirmação para deixar claro que essa não foi uma decisão tomada por falta de tempo, esquecimento ou porque a festa deixou de ser importante para a comunidade do IFUSP, especialmente os estudantes. Justamente por reconhecer essa importância, entendemos que era necessário avaliar honestamente se, nas condições de 2026, faria sentido realizá-la.
A esta altura do ano, em outubro, talvez muita gente esteja se perguntando o que aconteceu com a tradicional festa de agosto. Há anos a Agostina marca o calendário da Física e faz parte da experiência de ser estudante do IFUSP. É um
momento de encontro, convivência e ocupação do espaço estudantil. A universidade não deveria ser apenas o lugar onde estudamos, ensinamos e pesquisamos, mas também um espaço de construção de comunidade, cultura e relações, algo que
perpassa de muitas maneiras a sensação de pertencimento. É justamente por reconhecer isso que não tratamos a decisão como um simples “não quisemos fazer a festa”. Nós discutimos se era possível fazê-la e chegamos à conclusão de que, neste ano, não era.
Essa decisão é resultado de uma experiência que já se acumula há alguns anos. No ano passado, a Agostina consumiu mais de R$17 mil das reservas do CEFISMA e teve pouco mais de R$9 mil em vendas. Parte das despesas ainda foi paga em setembro, fazendo com que o impacto financeiro ultrapassasse o mês da festa. A experiência da Setembrina, realizada depois, aprofundou a mesma contradição: foram mais de R$16 mil em gastos para uma arrecadação de aproximadamente R$5,9 mil. O problema, portanto, não poderia mais ser tratado como um acidente isolado. A forma como estávamos construindo festas desse tamanho não era sustentável para as entidades estudantis.
E o prejuízo não termina quando a festa termina. As contas continuam, os pagamentos continuam e a entidade precisa passar meses recuperando o que foi perdido. Mesmo com a recuperação financeira que conseguimos posteriormente, de
cerca de R$15 mil, o impacto daquele período foi diluído ao longo do semestre e exigiu um esforço enorme para continuarmos cumprindo nossas obrigações políticas e financeiras.
Isso é especialmente importante porque o dinheiro do CEFISMA não existe para financiar uma empresa de eventos. Ele é um recurso coletivo, destinado à organização, sobretudo política, dos estudantes de Física e de seus coletivos. Somos também a única entidade que realiza repasses financeiros e isso tem consequências práticas: ajuda a estruturar nosso trabalho e fortalece nossa posição diante das burocracias da universidade quando precisamos reivindicar nosso espaço coletivo e
resolver problemas que atravessam a vida estudantil.
Por isso, gastar é sempre uma decisão política. Quando colocamos uma quantidade grande de recursos em um único evento, necessariamente deixamos de colocá-los em outra frente. E hoje continuamos herdando e recebendo muitas responsabilidades, cujo cumprimento é essencial para a continuidade da consolidação e legitimação da entidade, construída ao longo de grandes esforços nos últimos anos: manter e melhorar o Amélia Império, construir atividades políticas e
culturais, apoiar estudantes e sustentar relações com outras entidades e espaços de organização. Não faria sentido defender a autonomia do nosso espaço estudantil e, ao mesmo tempo, colocar em risco a capacidade financeira da entidade para garantir uma única noite de festa.
Em 2026, essa discussão ganhou uma dimensão política ainda maior por causa da greve. No IFUSP, a mobilização teve entre seus eixos a defesa da autonomia e da própria existência do nosso espaço estudantil. O Amélia Império esteve no centro dessa disputa, e não podemos agir no pós-greve como se as relações políticas fossem as mesmas de antes. A greve altera relações, produz conflitos e deixa marcas. Todos que participaram dela, inclusive integrantes atuais e antigos das entidades, sentiram de alguma forma seus efeitos ao longo do ano.
Isso não significa que deixamos de realizar atividades. Ao final da greve, realizamos a Festa do Fico, junto com a AAAGW, uma festa que, segundo o que nos foi passado, não acontecia há cerca de dez anos. Também buscamos construir a
FOGAYRA junto com estudantes do IP, do IRI e do IME. Não participamos de sua realização por causa da coincidência com o período eleitoral, mas a experiência mostrou que existem outras formas de construir integração e, inclusive, eventos
financeiramente sustentáveis. A FOGAYRA, inclusive, deu lucro, algo que não pode ser dito sobre a Agostina.
A questão, portanto, não é escolher entre “Agostina ou nada”. Permanência estudantil não cabe em uma única festa. Ela também passa pelo espaço onde o estudante pode permanecer, pelas relações que consegue construir, pelo
acolhimento, pela cultura e pela organização política. Podemos fazer festas menores, atividades conjuntas com outros institutos e ocupar mais o Amélia ao longo do ano. Uma comunidade não se constrói em uma única noite.
Ao mesmo tempo, não podemos ignorar que a própria organização da Agostina revelou problemas que continuam sem solução. No ano passado, já havíamos identificado um grau de improvisação incompatível com o tamanho do evento. Isso
não significa falta de dedicação de quem trabalhou na festa; pelo contrário, houve muito trabalho. O problema é que ainda não construímos uma estrutura permanente capaz de dividir responsabilidades, planejar com antecedência, prever riscos e
impedir que poucas pessoas carreguem praticamente todo o peso da organização.
Não podemos depender eternamente do esforço extraordinário de algumas pessoas para fazer uma festa acontecer e, depois, passar meses pagando suas consequências. Se a Agostina voltar, ela precisa voltar diferente: mais planejada,
mais coletiva, mais comunitária e financeiramente sustentável.
Há, ainda, uma responsabilidade que não podemos deixar de lado: nos próximos meses, o CEFISMA continuará precisando apoiar estudantes em viagens e atividades que mantêm nossas relações estudantis e acadêmicas para além do IFUSP. Como nem sempre a universidade consegue cumprir esse papel, ele volta a recair sobre as entidades. Preservar nossos recursos, portanto, não é adotar uma lógica empresarial. É preservar a autonomia política da entidade. Quem não possui
recursos depende de terceiros; quem possui alguma autonomia financeira consegue escolher onde atuar e quais disputas enfrentar.
É por isso que decidimos não realizar a Agostina este ano. Não foi desistência, nem falta de vontade, nem abandono da tradição. Foi uma avaliação política e material das condições concretas em que estamos. Realizar a festa significaria
assumir novamente um risco financeiro que já conhecemos e, ao mesmo tempo, aumentar um desgaste político que, depois da greve, não temos motivos para considerar pequeno.
Às vezes, fazer política significa dizer não a uma iniciativa que gostaríamos de realizar. Não precisamos provar nosso compromisso com a comunidade fazendo uma festa a qualquer custo, em detrimento de utilizar recursos financeiros e humanos para iniciativas mais valiosas para a comunidade. Nosso compromisso aparece também na capacidade de preservar o espaço estudantil, apoiar os estudantes, construir outras atividades e manter a entidade em condições de agir quando novas demandas surgirem.
A Agostina continua sendo parte da história do IFUSP e continua sendo importante para nós. Mas preservar uma tradição não significa repeti-la mecanicamente todos os anos, independentemente das condições. Significa preservar aquilo que havia de mais importante nela: a capacidade de reunir, construir vínculos e ocupar politicamente a universidade.
Neste ano, isso significa dizer não. No futuro, caso existam condições para isso, queremos construir uma Agostina melhor do que aquela que conseguimos construir até aqui: mais coletiva, mais organizada, politicamente possível e que não
cobre da entidade meses de recuperação depois de uma única noite.
Em outubro, portanto, a ausência da Agostina não é simplesmente a ausência de uma festa. É resultado de uma escolha. Escolhemos preservar nossa capacidade de continuar fazendo política, de defender o Amélia, de apoiar os estudantes e de
construir novas formas de encontro. Não queremos apenas repetir o que fizemos. Queremos aprender com o que fizemos. E, neste momento, isso significa não realizar a Agostina.
Sobre a autor:
Cefisma Popular é a chapa vigente do CEFISMA 2026-2027.