Coletânea de Artes – Setembro de 2026

Aprecie algumas obras de artes produzidas pelos alunos do Instituto!

Que será será
Evelyn

É sexta. No seu apartamento, a iluminação sépia revela a bancada da sua cozinha. Duas banquetas. Eu e você.

À penumbra, um contraste. Em seu prato, um meticuloso cuidado com o alimento: vegetais selecionados, uma rigorosa recusa à crueldade. É uma promessa, de que você levará sua compaixão por todos ao extremo, negará ser causador de qualquer dor, mesmo ao menor dos insetos.

Na sua sala, não consigo discernir o dia da noite. É apenas sexta, como todas as outras sextas. Olhando para você, posso compará-lo a um dócil cervo: belos e inconfundíveis olhos. Sua aproximação é pacífica, desarmada, em direção à inocência de seu verde campo. A sala de estar torna-se em nevoeiro, o tapete em musgo e o sofá em um tronco tombado.

Eu caminho com cuidado, evito pisar em seu espaço. Aqui, não existe “nosso”,
porque não existe o “nós”. Também não existe nada meu. É bem delimitado, muito bem definido. Existe você e o seu, só há espaço pra um. Da sua natural maneira, o vejo carregar em sua cabeça uma pesada coroa de ossos e pontas afiadas. Não é necessário usá-la aqui, mas como alguém precavido, sempre a mantém em vista.

O apartamento está fechado, porém sinto muito frio. Te abraço forte, buscando por calor. Lentamente um abraço apertado, rapidamente uma sensação de sufoco. O calor te faz sentir contido, encurralado, em pânico. O que se segue é uma conversa difícil, pois posso vê-lo em sua fraqueza, e isso o amedronta.

Estamos diante do silêncio de uma discussão, do choque de nossos corpos. É uma fria estação, onde até os mais mansos animais podem se tornar ariscos. Te falta alimento. Te falta paciência. Sua defesa se ergue em olhos gentis, um monstro de afiadas armas. É cirúrgico, frio, cortante. Fecha-se, repentino e gélido. Me atinge com ternura, constrói um meu, um ego que surge da repulsa ofertada.

A cozinha está limpa. Na sala, carnificina. E a criatura, enrijecida. Pensei ser seguro, desarmei-me, quebrei-me e varri para debaixo do tapete. O teu olhar de desdém me fere de morte e rasga minha carne. A floresta é destruída e o rival é estilhaçado por seu bote. Palavras de dor, com a mesma voz branda que declarou: Não ferir, a ninguém, que tenha valor.

Vosso ideal de não-violência, aplica-se ao mundo porque o mundo importa, efêmero, ele passa. Já eu, não faço parte do mundo, eu fico. Não sou sujeito reconhecido.

Após o golpe, quietude. A fera agora está calma, e segue pastando. Sua presa ardendo em crueldade. Mas se há sentir, existe uma carne que vive. Sim, existe.


Fumantes, Trombadinhas e Mendigos
Neto

Uma bituquinha na chuva
Cada qual um querer
Eu escolhi
Gosto do barulhino que faz
“Shhhhhh”
Pede pede
O silêncio de pracinha
Quando as belezas por dentro
Vem Vem
E apagam o sofrimento

Eu tenho pra mim a vida dos mendigos
Nenhum mendigo nunca vai
Nem vai
Incomodar um fumante
Nem os trombadinhas
Existe um pacto secreto
Que sabe-ninguém
Que só eu sei

Nunca vi roubarem um fumante
Nunca vi pedirem a um viciado
Existe uma dó
Um respeito
Um estigma de leito
Leito ao lado
De síncope fumada
E as mãos perfumadas

No máximo um lamento
Um pedido-isento
Um mendigo de cartola:
[Que mandou escolher uma:
{3 de espadas}
E antes que eu suma
Em minha carta
Adivinhou a certa]
Mas antes disso
Bem antes disso
Dizendo a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
“Me dá um cigarro?”
E foi mostrar o truque a outro.
Quem sabe pegasse mais um
E fizesse debaixo de chuvas
Outro “shhhhhh”


um, o uno
André

um sonho
uma prévia, uma sensação
um gosto do que vem pela frente, antes que se faça ser
um vislumbre no rio infinito de possibilidades que existe fluindo no espaço vazio entre cada decisão
uma vida fácil
uma fuga da ordem natural
uma, duas, três, muitas impunidades
uma infinidade de dor causada
um vazio de remorso
mas então
um erro
uma decisão equivocada
um salto mal calculado
uma espiada longe demais
uma olhada no que não deveria ser alcançado
uma coisa muito além da compreensão
um que transcende o ser
um que não gosta de ser visto
um algo além de tudo
um medo
um terror
uma mente estilhaçada
um espírito destruído
uma alma perdida no vácuo
um par de olhos eternamente vidrados
um corpo que desvanece
uma realidade desintegrada
um gosto de justiça


Antiderivada desse Nome
Igor Ligieri

Na trajetória do teu toque eu me desloco,
como uma função sem ponto de partida.
Teu amor, um plano onde me evoco,
sem derivar razão definida.

Busco no traço sublime a primitiva,
do teu lapso, feita variável incerta.
Teu nome… constante de alma subversa,
oculta em cada forma intuitiva.

És um gráfico em domínios velados,
em que cada tato é área sob curva.
E eu — executor de afetos deslocados,
te acompanho sem saber de que função se turva.

Não te somo, maldita adição, nem subtraio com precisão.
És soma indefinida em campo aberto.
Em cada dia, o cálculo se faz incerto —
e escapa como a sombra da equação.

O sentimento, em seu domínio indefinido,
reside em inumeráveis soluções ocultas.
E eu, por entre cinturas resolutas,
integro o que jamais será contido.

Por vezes, opto pela troca de variável,
alterando o eixo do que me consome,
mas esse contorno — unicamente instável —
não se ajusta a nenhum novo nome.

Meu martírio, ao confiar em solução de sorte,
busca, urgentemente, a ∫ emoção.
Mas nem sei a constante da equação,
sem método exato que suporte.


O Impostor
Escobar

Vivia ele em sua bagunça, dia e noite com a mente rondando ideias e coisas a fazer. Uma bola de neve de todas as obrigações e desejos, muitos planos pra míseras horas desperdiçadas
mofando em uma cama, tomando todos aqueles comprimidos e nunca conseguindo sair do lugar de fato.

Por que coisas básicas parecem tão difíceis e coisas mais complexas são mais possíveis? Muitos sonhos não conseguem ser colocados em execução porque o mundo das ideias não se torna ação e de novo vem aquele velho sentimento de estar fingindo tudo, de mentiras contadas do jeito certo pra que nenhuma falha
que denuncie tudo escape. Os elogios parecem meras facadas ao passo em que a mente não acredita em uma só palavra, nada realmente é bom ou tem qualidade o suficiente.

Mas o suficiente pra quem? A régua parece infinita pra um ser humano só, nada realmente certo. O certo e o errado se confundem em um cinza que ele não enxerga em seu todo, só consegue categorizar pela quantidade de cores que estão compondo esse cinza.

Tudo parece apático, antes tão intenso e dominado pela confusão, pelo desespero e pela morte, nada disso existe mais. Momentos bons
mantém a sanidade, senso de sentido alimenta a alma, mas como nutrir um corpo sem comer?

E uma sucessão de novas coisas a fazer, de frustração por nunca ser o suficiente pra si, da sensação de atrapalhar em qualquer tentativa de ajudar, nada realmente acaba.

Se antes o maior problema era o passado, seu maior problema agora é o futuro e como agir no presente, um horizonte que se torna borrão a cada pensamento novo e falta de ação.


(Minha) Lista de Palavras
Triz Persoli

Acho (que esculacho!) que não te falei
Mas, tenho uma lista de palavras
As encontro e as guardo bem guardadas
E não tem uma delas que eu usei
Tenho pavor de perderem valor
M’apego a medos de colecionador
E não mostro a lista p’ra ninguém.

Ainda, creio que são lindas e sonoras.
Delas o significado e ‘soletrado’
Sei. Mas não coleto nada rebuscado.
E, por vezes, sinto-me Macabéa;
Simplória. Enrolando nesses versos.
Fingindo ser Clarice nesses versos.
Compenso, essa lírica irrisória,
Criando um mistério (que esperto),
De uma sensibilidade-segredo
Perdida na lista da minha história.

No fim, com desleixo e silêncio,
Confesso que, as minhas palavras,
Acho ruins. Pior: as acho baratas.
Peço a ti: escreva por mim. (Quê suplício!)
Repito. Peço: reescreva minha lista.
E minta e me diga que ela é toda minha
Para que ainda possa nascer pr’esse ofício


Orquestra
Ganargas
Akame
Sams
Atenta
Triz Persoli

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