Falar sobre drogas, telas, jogos de azar (tigrinhos) ou qualquer outro tema sensível em sala de aula é sempre um exercício de altíssimo equilíbrio. Calar demais ou não conversar deixa a criança e o adolescente desprotegidos diante de informações erradas que circulam entre os pares e nas redes; dramatizar demais transforma a prevenção em propaganda do proibido, o que pode até despertar curiosidade em vez de afastar o risco. A boa notícia é que já existe um corpo consistente de pesquisa e de política pública no Brasil orientando como fazer essa mediação com responsabilidade — e a maior parte desse material está disponível gratuitamente para quem quiser se aprofundar.
Análises de programas escolares brasileiros mostram que a maioria das ações de prevenção ainda se resume a passar informações sobre riscos, sem envolver formação de professores, sem reforço em momentos de transição escolar e sem se basear em metodologias com eficácia comprovada. Um levantamento publicado na Ciência & Saúde Coletiva constatou que mais de 80 por cento das escolas pesquisadas trabalhavam educação para a saúde, afetividade e conhecimento científico, mas mais de 60 por cento dos programas não seguiam modelos já validados — um indicativo de que a boa intenção, sozinha, não basta.
A literatura da área costuma resumir isso em uma frase: prevenção eficaz não é “dar palestra sobre os malefícios”, é desenvolver habilidades de vida. Isso significa trabalhar autoestima, tomada de decisão, lida com frustração e pressão do grupo — não apenas listar consequências negativas.
Estudos com estudantes de escolas públicas indicam algo importante para quem educa: o ambiente social e os vínculos afetivos têm mais peso do que a simples disponibilidade da substância ou do estímulo. A influência do grupo de pares e as atitudes sociais em torno do tema costumam ser mais determinantes do que o acesso em si. Na prática, isso reforça que programas de prevenção funcionam melhor quando ajudam o jovem a se realizar em outras potencialidades — esporte, arte, projetos de vida — e não apenas quando o mantêm ocupado ou assustado.
Esse achado vale para além das drogas: comunicação preventiva sobre uso excessivo de telas, apostas ou qualquer comportamento de risco tende a funcionar melhor quando fortalece vínculos e autonomia do que quando se apoia só no alarme.
A Base Nacional Comum Curricular incorpora o tema saúde em praticamente todos os anos do Ensino Fundamental II (que contempla da antiga 5ª série em diante), ainda que de forma distribuída e nem sempre explícita: o 6º ano trabalha a relação entre os sistemas locomotor e nervoso, o 7º ano aborda questões de saúde pública e vacinação, e os anos seguintes avançam para reprodução e desenvolvimento humano. Pesquisas que analisaram livros didáticos de Ciências e Biologia à luz da BNCC apontam que o tratamento do tema drogas costuma ser superficial e descontextualizado em relação a cultura e mídia — o que reforça a importância de o educador complementar o material didático com fontes mais robustas, e não repetir apenas o que já vem pronto no livro do aluno.
O Programa Saúde na Escola, mantido pelos Ministérios da Saúde e da Educação, formaliza a ideia de que a escola deve ser um espaço de diálogo e de produção de saúde — não de repressão. Entre seus eixos está criar espaços de conversa sobre álcool, tabaco e outras drogas e desenvolver habilidades para a vida, articulando a rede escolar com a rede de saúde do território. É uma referência útil para professores que querem estruturar rodas de conversa com respaldo institucional, em vez de improvisar sozinhos.
Para quem quer se aprofundar sem custo, alguns caminhos concretos:
- MEC Livros (meclivros.mec.gov.br) — a biblioteca digital do Ministério da Educação não é especializada no tema, mas reúne obras de domínio público e contemporâneas que ajudam a abrir a conversa por vias indiretas: literatura que trata de dependência, vulnerabilidade e amadurecimento pode ser uma porta de entrada mais sensível do que o discurso didático direto, especialmente com adolescentes.
- Portal do MEC — Prevenção ao uso de drogas (portal.mec.gov.br) — reúne notícias, diretrizes e materiais oficiais sobre o tema na educação básica.
- ABRAMD (Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas) — publica material de formação voltado a educadores, com abordagem multidisciplinar e sem viés meramente punitivo.
- SciELO Brasil — reúne artigos revisados por pares sobre prevenção escolar, fatores de risco e proteção, e avaliação de programas, com acesso integral e gratuito.
- Programa Saúde na Escola (PSE) — documentos oficiais disponíveis nos portais do Ministério da Saúde e do MEC detalham como estruturar ações preventivas dentro da rotina escolar.
Educar sem estimular não é sinônimo de evitar o assunto, nem de tratá-lo com tom de ameaça. É poder dar informação de qualidade, fortalecer vínculos com seu filho/sobrinho/enteado, desenvolver habilidades de vida e usar linguagem adequada à idade — sempre apoiado em evidência, não em intuição isolada. Quanto mais cedo a escola (e principalmente a família) constrói esse repertório, menos espaço sobra para que o silêncio ou o exagero façam o trabalho de formar a opinião da criança sozinhos.
Sobre a autora:
Camila Leite é aluna ingressante do IFUSP em Licenciatura em Física.