Insurgência e sujeito: Uma ode à política da autonomia

O itinerário político da greve

São todos vadios, bandidos. Colérico, um professor retira cadeiras empilhadas em frente à porta de uma sala do terceiro andar. A mãe chora a insubordinação do filho, um pedacinho de carne em fraldas que corre de um lado a outro quebrando pontas de mesa da casa. Perdas e mais perdas. Não entra na cabeça do governador uma greve estudantil, este cisticerco ingrato. O vento frio da madrugada assobia o ar rasgado pela ponta de um cassetete. Irrompe o sangue fresco de uma pequena hemorragia interna de um braço deslocado, a sombra cilíndrica de um hematoma. O movimento é, para si, subordinado a um discurso das consequências e da polarização. A marca do medo no som de uma bomba de efeito moral ou de um email do representante discente: é o segundo domingo de maio. O estudante se torna moeda de troca na posição de aluno – é obrigado a ponderar se deve participar ou não destas lutas que a ele também se externalizam, ou se deve contrariar-se a elas pela manutenção da harmonia das atividades cotidianas. Instaura-se um ambiente de guerra: uma guerra dos afetos. As baionetas atiram diretamente nas formações subjetivas, a construção do desejo como mote da operação política é posterior ao buraco de bala cravado na 13° costela.

Esteja aí o duelo colocado. Os cavaleiros e seus floretes são um mesmo. Um hegelianismo às avessas: em um mesmo discente conflitam seu em-si – aluno, portador de um número USP e um histórico escolar – e seu para-si – estudante, sujeito cuja vontade de fazer ciência é a mesma de se emancipar, de construir sua própria história. Rasgou-se a pele do rosto do reitor, da fenda do olho direito à boca uma protuberância que incha até a explosão. É este o cenário que nos interessa. A greve dos estudantes se torna campo de exposição de um sentimento geral da autonomia, um enfrentamento existencial das mortes como princípio de um remanejamento da forma proposicional: o aluno deixa de ser aluno para voltar posteriormente a este posto, mas agora com outra significação. Pretendemos aqui percorrer a história da greve até o momento, reescrita sob a ótica de seus mecanismos de subjetivação e embate afetivo, partindo já de seus discursos iniciais e na perpetração quase edipiana destes ainda no desenrolar dos momentos adjacentes. Este texto é uma manifestação política pessoal, não se deve tomá-lo com maior extensão que esta.

Se há de deixar claro como estamos aqui encarando a greve. A greve é, acima de tudo, uma ação enfrentativa. Não a vejo como um dispositivo extremo de reivindicação, pois que sua natureza é essencialmente diferente de qualquer outra atividade institucional. Sua ação tem o caráter de uma ruptura no tecido burocrático que forma um imaginário social. Nisto devemos aqui fazer uma separação que me parece necessária: é preciso distinguir os discentes enquanto estudantes e enquanto alunos. O aluno é uma posição simbólica, numa relação de poderes estrutural. Entenda aqui esta relação não interindividual, mas na marca de uma identidade construída sobre eles em uma máquina cuja expressão significante é o burocratismo acadêmico – a matrícula, o número USP, a cadeira em que se senta em uma sala de aula, a nota de uma avaliação. A coexistência de uma multiplicidade de esferas n’onde este indivíduo consiste permite que se operem diversos cortes e incisões nesta identidade simbólica, não pela negação – cremos que a negação se mantenha na mesma esfera –, mas pela sua diversificação de possibilidades, especialmente quando os agentes simbólicos se apresentam fora da estrutura de valoração, como é um professor em um bar. No caso da greve, contudo, podemos pensar que duas esferas, essencialmente, se relacionam em embate: esta estrutura simbólica, como se manifesta, e um mote pessoal da permanência nela, digamos, como uma vontade de fazer ciência mas que não se liga à burocracia como está dada.

Dado isto, podemos pensar o início da greve como um conflito em cada indivíduo. E aqui temos de criticar a própria organização da greve, isto é, a falta dela: como o movimento iniciou-se de arrastão, aproveitando a energia da greve dos funcionários que o antecedeu e permeou, o conflito interno era óbvio, pois muito dificilmente se poderia aceitar uma tal ruptura simbólica nos rituais de rotina em virtude de um simples aproveitamento de mobilização. A resposta dada por agentes grevistas então, me pareceu a pior possível: após decididas as pautas da greve – ironicamente, decisão posterior ao início desta –, o discurso de adesão se fixou em uma postura de sofrimento e empatia, imprimindo naqueles que pendiam para uma posição contrária como antipáticos e indiferentes ao sofrimento de um grupo de alunos específico. É evidente o erro aí: a posição de aluno, em cuja pele o bisturi da greve viria a incidir, não pode ser individualizada, pois é essencialmente simbólica, e a incisão não pode ser tomada como benevolência. Este discurso soou como: se você não quer greve, se não a busca, então não se importa com os sofredores, é um indivíduo mau – um conflito em um campo, a resposta no outro. Com isso creio que se possa compreender alunos que se mantiveram contra todas as posições da greve e do comando de greve, quase que em inimizade pessoal com estes. Do lado dos professores, seu lugar nesta estrutura simbólica é uma posição de poder. Ter esta posição ameaçada em uma ação autônoma dos alunos já é, a priori, mote de contrariedade.

Este discurso fragilizado, instável e moralista da empatia me parece ter finalmente entrado nos rumos da luta em seu respectivo campo após o evento do dia 10 de maio. A ocupação da reitoria feita pelos alunos se irrompeu no dia 7 de maio, em um momento no qual a greve parecia retroceder nos institutos. Seu início disperso fez com que, após os funcionários terem suas reivindicações atendidas e saírem de greve, a greve dos estudantes parecesse pouco justificada. O discurso anti-grevista busca a manutenção de um mecanismo que não é neutro ou natural, como se pretende, mas sim um mecanismo político que mantém os futuros cientistas e professores que daqui sairão subordinados aos sistemas de valores morais, econômicos e políticos dos senhores. Mas foi a reação à ocupação da reitoria que gerou uma mudança absoluta no tom das reivindicações. Quando, na madrugada do domingo de dia das mães, a polícia entrou na reitoria e, com uma truculência absurda, expulsou os alunos do prédio, a forma da repressão passou de ameaças institucionais relacionadas ao semestre letivo e se tornou um cale-se baseado na força. A imagem da contra greve passou a ser um puro tatear pela prisão, um grito choroso pela subordinação. Mas é aí que se encontra o que nos interessa.

Não existe reitoria sem alunos, não existe aluno sem estudante. Uma vez que a experiência de uma violência extrema faz com que os alunos tenham de experienciar a destruição total da leniência anterior, como uma experiência de morte da identidade institucional, não tem mais nada a perder nesta esfera. Morre com esta identidade o jogo de valores, o ganha-perde que o fazia ponderar sobre a luta ou não. Lutar deixa de ser uma opção, no campo dos poderes. Ainda que a greve acabe agora, sabe-se que o inimigo continua ali, a espreita, que venceu pela dominação e que não aceitará mais nenhuma tentativa de autonomia. Com a continuidade da greve, a volta Às aulas será marcada pela nova formação da identidade de aluno. A possibilidade da crítica é uma forma nova de autonomia, um horizonte diferente das decisões. Nossa posição é, explicitamente, pela continuidade da greve, portanto. É preciso que alcancemos os objetivos agora pautados – o aumento do PAPFE, especialmente –, não somente pelos ganhos diretos obtidos com isso, mas, especialmente, com o remanejar da relação aluno/universidade que daí venha, ou ainda, para evitar o remanejar que daí virá no caso da derrota. Perder seria perder também autonomia.

Sobre o autor:
Luiz G S Almeida é aluno do IF e escreve dentro de uma caixa de sapatos.

👀 Não perca as Novidades do IFUSP!

Não fazemos spam! Vamos te enviar APENAS um email por semana com as atualizações de repasses e/ou postagens da semana.

Abrir bate-papo
1
Escanear o código
Olá 👋
Vem falar com o Cefisma!