A política do grito e sua ineficiência

Não sigo rigorosamente nenhuma religião em específico, entretanto fui batizado na igreja católica quando pequeno. Tenho muitas ressalvas com os dogmas cristãos, porém acredito fielmente que quando recebemos um tapa em nosso rosto, devemos dar o outro lado em resposta. Não acredito em respostas exacerbadas às mazelas do mundo. Gosto de pensar que sempre temos a chance de tomar a decisão pacífica da vida, sem perpetuar um ciclo de ódio.

Na segunda-feira, dia 28 de maio de 2026, a reunião do Conselho Universitário teve seu local alterado aos 45 do segundo tempo e nenhum dos representantes discentes foi avisado sobre isso. A pauta dessa reunião não possuía nenhum tópico relacionado ao contexto político de greve estudantil, o que gerou revolta por parte dos RDs. Os alunos representantes então distribuíram uma sugestão de pauta própria para os conselheiros com exigências estudantis, as quais eu não questiono a relevância. Vale ressaltar que essa sugestão de pauta não foi enviada à assistência acadêmica responsável (até onde eu sei) e que estava sendo divulgada para o corpo discente como se fosse uma pauta do CO já confirmada.

Nessa tentativa de reunião, os RDs ficaram tomando tempo de fala e questões de ordem exigindo que a sugestão fosse acatada, chegando ao ponto de interromper diversas vezes as pessoas que estavam na ata verdadeira, como a representante dos museus, que esperou por 20 anos para que sua situação fosse resolvida. Os alunos subiram ao palco e o clima instaurado não foi nada bom. Conselheiros estavam raivosos, talvez ofendidos, e o fluxo da reunião não ocorreu devidamente. Assim, o reitor decidiu encerrar a reunião do CO, sem que nada fosse, de fato, votado. Nem os museus, nem os reajustes, nem as reivindicações estudantis.

Na mesma semana, na quinta-feira, houve a reunião da Congregação do Instituto de Física. Os representantes discentes do colegiado organizaram a leitura de uma carta, escrita em conjunto por eles próprios, pedindo que o corpo docente do IFUSP não realizasse retaliações avaliativas, administrativas e judiciais contra os alunos como resposta à greve. A diretora disse que permitiria a leitura durante o período de comunicados gerais, ao final da reunião, e que levaria essa carta para a reunião com os docentes. Em nenhum momento foi exigido caráter deliberativo, apenas que o que fosse dito fosse ouvido, pacificamente.

A reunião ocorreu tranquilamente, sem baderna. Havia um ato acontecendo do lado de fora, silenciosamente e sem pretensão de implodir a reunião que ocorria. Posso dizer por mim e ao menos um outro colega RD que a ansiedade ainda assim pulsava em nosso estômago, violentamente. Apesar do nervosísmo, foram votados tópicos marcantes, como o novo projeto acadêmico do IFUSP e a diplomação post-mortem da estudante Giovana Santos Oliveira, vítima de suicídio em 2023, também durante uma greve. Foi feito um minuto de silêncio em homenagem à ela, além de falas emotivas e compassivas de professores que sentem sua perda.

Ao final, os estudantes disseram o que tinham para falar. Os docentes, por sua vez, ouviram. Ninguém quer um conflito como o ocorrido na reunião do Conselho Universitário. Ninguém quer likes no instagram. Ninguém quer que o fino fio que sustenta o diálogo seja rompido pela brutalidade. Todos queriam apenas ouvir e serem ouvidos. A mesa, que naquele momento não era comandada pela diretora, parabenizou os estudantes presentes pela iniciativa pacífica e cheia de decoro. Algumas horas mais tarde, na reunião dos docentes, foi colocada em votação essa proposta dos RDs da Congregação, que foi aprovada por 70 votos à favor, 1 contrário e 1 abstenção.

A reflexão que quero colocar neste texto é de que não importa quantas vezes sejamos pisados, chutados ou maltratados por pessoas ruins, o que importa é que nunca devemos sequer sermos próximos dessas atitudes. Existem professores universitários chatos, mas isso não significa que todos são e nem que esses chatos são, de fato, sempre chatos. Acredito que, por vezes, a jovialidade da política estudantil exagera muito, como em dizer que um professor preso e torturado durante a ditadura, co-fundador do DCE Livre da USP e gentil pesquisador do IAG-USP, é de extrema direita.

Minha formatura acontece ao final deste ano. Não serei mais estudante de graduação. Apesar disso, coloco para as próximas gerações estudantis meu conselho final, como um veterano que não suporta ver bixo: não grite. Ninguém te escuta quando você grita além de você mesmo. Podem gritar, podem bater, podem fazer o que for contra nós, mas como estudantes, e, acima de tudo, como pessoas, devemos sempre ser pacíficos. Devemos dar uma chance do certo acontecer sem a perda da razão. Caso contrário, perderemos aquilo que sempre almejamos, e nenhuma conquista, de fato, nossa. Nada é ganho quando a coisa mais preciosa que temos, nossa humanidade e empatia, é deixada para trás.

Sobre o autor:
Guilherme Aciron é RD da Congregação, fotógrafo e particuleiro do IFUSP

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