No final dos anos 90 um dos maiores nomes da história da divulgação científica, o aclamado e conhecido por quase todos os entusiastas da ciência, Carl Sagan, enfrentava uma de suas maiores batalhas, ao lidar com o câncer em sua fase terminal e mais agressiva.
Em seu lugar seria comum que ele se entregasse à negação dos supostos benefícios da Ciência, já que sua batalha intensa era dada como perdida para a ciência de sua época, e ainda hoje, passadas algumas décadas, de fato ainda não temos a solução objetiva para tal problema que tanto nos aflige.
Porém, ao invés de se deixar levar pela negação ou buscar soluções mágicas e fantasiosas que se ancoram na psique humana fragilizada pela dor e desamparo de um processo difícil como esse, ele canalizou as suas últimas forças para criar um livro que se tornaria uma ode de amor à ciência.
Pois em O Mundo Assombrado pelos Demônios, Carl Sagan nos conecta com a verdade fundamental do pensamento científico, que é a de que em meio ao mais profundo vazio e escuro do cosmos em expansão, a ciência é uma vela nesse escuro, sendo a estrutura de pensamento que nos dá o ferramental necessário para conjecturar a natureza da realidade, desde os postulados mais fundamentais às implicações práticas que advêm das ciências aplicadas, nos lembrando em cada página de que outrora éramos ansiosos e cooptados pelo medo absoluto do não saber, e agora, munidos de tal ferramenta, construímos pontes para novas possibilidades todos os dias.
Na Antiguidade, mais precisamente há cerca de 25 a 30 séculos, nossas civilizações organizadas já com certo grau e aparato de engenhosidade ainda tinham em sua gênese uma dor intrínseca de se ancorar em demasia na falta, sob o viés da superstição, que dava algum grau de sentido e ordem ao caos e à incerteza de existir em meio a um mundo natural aparentemente alheio às nossas dúvidas e devaneios.
E não importa o quanto chateados possam ter ficado os grandes pensadores da Grécia em seu tempo ou os físicos contemporâneos após o CERN derrubar uma série de teorias muito bem estruturadas e com grau de solidez matemática invejável, a natureza da realidade se sobrepõe às nossas inferências e necessidades de enquadrá-la em moldes. Portanto, a ciência é um exercício de engenhosidade e empreendimento humano ímpar e, para Carl Sagan, também um exercício de humildade e estupefação perante as infinitas possibilidades.
Nesse sentido, o primeiro grito que vem da floresta não nos basta dizer que é um fantasma ou que luzes ao redor de uma cabana à noite só podem ser uma bruxa.
Quem diria àqueles lunáticos bem motivados, como quase todo cidadão dito de bem, que existe algo chamado bioluminescência.
Sejamos, portanto, agradecidos, fiéis, mas também críticos, sendo sempre abertos à mudança, que é o fluxo natural da construção coletiva do conhecimento humano, pautados na confiança do consenso dos pares de cada área de investigação e sendo ávidos por cada pedacinho de novidade, seja um processo social ou a matéria escura.
Todo pedaço da realidade que vier a ser concebido se torna parte do ferramental de toda a espécie humana. Por este motivo, pensar ciência não deve ser a atividade de seres especiais, mas o cerne de toda uma sociedade organizada, cuja capacidade de produzir e divulgar ciência se torne a força motriz de uma revolução social que nasce da contemplação da beleza e de toda a complexidade que nos rodeia.
Fazer ciência é uma atividade humana, portanto um construto social e não politicamente neutro.
É cada vez mais necessária para que nos alinhemos à crescente tecnológica e à aplicação do pensamento científico, à interpretação de seu uso e objetivos. Pois o mesmo espírito humano que nos trouxe até aqui, deve nos guiar para um lugar de acordo com o clima, com os nossos conflitos e as novas buscas (IA, CQ, ICM). A ciência não apenas nos deu a capacidade de nos destruir e saiu de cena, após a bomba atômica, mas sim permanece como o principal ator global, a bússola que nos conclama em frente a um sem-número de possibilidades: indagar, reinterpretar e corrigir, e corrigir de novo, o rumo de nossas escolhas e caminhos como civilização. Uma verdadeira vela no escuro!
Sobre o autor:
Douglas J. Vieira é aluno ingressante do IFUSP.